29.5.13

Isto não foi uma lição de moral


Não gosto de dar lições de moral em ninguém, nem quando a pessoa merece, acho constrangedor e na maioria das vezes inútil para ambas as partes, mas confesso que, neste caso apenas, sinto certo orgulho. A última lição de moral que lembrava de ter dado foi no meu pai, quando ele bebeu uma caixa de cerveja sozinho e dirigiu o carro por 15km na BR-282, sendo ele taxista e chefe de família. Na época, eu tinha uns 10 anos de idade e estava sentado no banco do carona. Agora pergunta se adiantou. Mas vamos ao que interessa.

Na verdade, desta vez foi uma lição dada meio sem querer, o que ajuda. Coisas que fazemos sem querer costumam dar mais certo do que aquelas que fazemos de caso pensado, simplesmente porque não estamos lá para atrapalhar. E a minha lição também envolve um taxista e uma caixa de cerveja; só que desta vez o taxista não era o meu pai, e sim um desconhecido, e quem tinha bebido as cervejas era eu. Diferente do meu pai, no entanto, chamo um táxi quando bebo. Filhos servem para isso, afinal: corrigir algum defeito do pai, mesmo que acrescente outros depois, fato que, pelo que temos observado superficialmente da história da evolução humana, deve ser a mais pura verdade.



















Acontece que sempre converso com os taxistas, procurando estabelecer um clima amistoso durante a corrida para, quem sabe, pescar uma boa história, mas não apenas por isto. Neste dia, depois de falar de futebol, que é um assunto que sempre rende pelo menos uns cinco minutinhos de papo, não sei por qual motivo começamos a falar do Elton John. Eu não puxaria um papo sobre Elton John, simplesmente porque não sei nada a seu respeito, inclusive lembro de ter confundido o músico inglês com algum outro que dá shows em estádios de futebol, e foi justamente depois desta confusão que o taxista disse assim:

– Você está enganado, Elton John é um viadão.

Fiquei um pouco sério, meio na defensiva, não querendo entrar em polêmica, mas o tom da frase era tão enfático que não deixava espaço para mudar de assunto. Perguntei se ele tinha alguma coisa contra gays e ele respondeu com toda a certeza desse mundo:

– Nada contra, desde que eu tenha uma espingarda na mão ou eles fiquem bem longe de mim.

– Pois você está do lado de um! – respondi, e me arrependi imediatamente da mentira, mas logo percebi outra vez que a mentira era legal, e então dei uma olhada no número de seu registro só pra garantir uma eventual queixa depois, seja por ter sido abandonado bêbado e de madrugada no meio da avenida das Andradas ou por sofrer homicídio doloso.

Como meus pais e minha namorada sabem, sou heterossexual assumido, não tenho vergonha de dizer, mas confesso que foi legal ser um viadão durante alguns minutos. O melhor é que eu estava vestindo uma bermuda meio colorida que, duas semanas antes, quando cheguei pra morar em Belo Horizonte, tinha sido confundida pelo meu novo parceiro de apartamento com a bermuda de sua irmã. Acho que o taxista, por sua vez, era o tipo de pessoa que não teria o menor problema em ser hostil com um gay, mas ele ficou tão surpreso com aquilo, deve ter sido algo tão surpreendente, que ficamos mudos durante o resto da viagem, e ela durou cinco minutos, cinco dias, uma eternidade.

2 comentários:

Lengo D'Noronha disse...

Ótima!

Victor da Rosa disse...

Legal que você gostou, Antônio!