3.5.13

Loucos, semi loucos e maníacos


Por Victor da Rosa












No começo do século XX, segundo conta Lilia Moritz em O espetáculo das Raças, era corrente a crença de que traços biológicos - da cor de pele ao formato do crânio - determinavam o caráter de um indivíduo. Ou melhor, não se tratava apenas de mera crença, senso comum, e sim de "ciência, análise objetiva". Os teóricos da antropologia criminal, campo de conhecimentos que começou a ser construído nas revistas das duas Faculdades de Direito que existiam no país, defendiam com franqueza - quer dizer, a franqueza fica por minha conta - que através do tipo físico era possível identificar um criminoso, um maníaco ou um louco. Os detalhes sobre estas teorias, algumas vezes, variavam - uns acreditavam que o criminoso representava o retorno à selvageria, outros apenas um caso de anomalia moral etc. - mas poucos discordavam da ideia de que, por exemplo, "uma nação mestiça é uma nação invadida por criminosos".

Laurindo Leão, professor de direito criminal em Recife, fazendo uso dessas teorias deterministas, elabora uma inusitada lista de anormais ilustres que, sem dúvida, faria Michel Foucault ter espasmos de felicidade. Naturalmente, há escritores e artistas de todo tipo nessa lista, que é dividida por algumas categorias: loucos, semi loucos, maníacos de grandeza e outros tipos de maníacos. O que preocupava o professor era menos a insanidade manifesta, e mais a proximidade entre loucura, crime e genialidade. Na lista de loucos completos - "ao menos no fim da vida", avisa Laurindo - estão Molière e, claro, Nietzsche. Já Flaubert, Byron, Mozart e Dostoiévski estão na lista de semi loucos, o que acho injusto com Dostoiévski, que devia ser tão louco quanto o autor de Gaia Ciência. Por sua vez, Balzac tinha mania de grandeza, Diderot mania de esquecimento e Wagner de decadência, seja lá o que isso signifique. Depois, Goethe era sonâmbulo e Victor Hugo egoísta. Há ainda outros e, a depender dos critérios, a lista não teria fim.