27.5.13

Onde queres o sim e o não, talvez















Não ter respostas pra quase nada talvez seja um chavão tão velho e eficaz quanto ter respostas pra tudo, mas eu ainda fico com o primeiro. Antes de mais nada porque sou um relativista incorrigível; mas principalmente porque as pessoas estão cada vez mais inteligentes, persuasivas e bem informadas, então quando alguém me convence de algo, logo vem outra pessoa e me convence o contrário. Em outras palavras, sou um promíscuo.
Dia destes, enquanto a sinaleira estava fechada, e às vezes uma sinaleira permanece fechada durante mais de dois minutos, eu pensava em como o mundo é chato e cruel, mas aí quando abriu eu mudei de ideia. Seja como for, estou longe de me gabar por isso, não faço estas confissões por orgulho, e sim porque até hoje não encontrei jeito melhor pra encarar as coisas.
Não ter respostas pra quase nada pode parecer uma atitude inteligente, de quem sabe que as ideias devem ser consideradas sob diversos ângulos, mas também pode soar como burrice, falta de firmeza. É bom pra escrever crônicas, por exemplo, pois crônicas são sempre especulações, só que costuma ser ruim pra ganhar dinheiro. E o que é mais importante, escrever crônicas ou ganhar dinheiro? Não sei também. Enfim, sou daquelas pessoas mais ou menos irritantes que, quando alguém pergunta qualquer coisa, mesmo que a pessoa só queira um sim ou um não, acabo sempre respondendo:
– Ah, talvez...
Ou então:
– Veja também o outro lado... – deixando no final das frases sempre umas reticências, que são os pontinhos que melhor representam a dúvida, bem diferente das exclamações.
 A lista de perguntas para as quais eu não tenho resposta, como se fosse o guarda-roupa de uma atriz de cabaré ou os números da conta bancária do pai de Neymar, tende a crescer a cada dia. Há sempre as dúvidas novas, mas tem também aquelas que nos acompanham há anos, companheiras que são. A pergunta sem resposta mais velha da minha vida diz respeito a dar ou não dar esmolas na rua. Existe mais complexidade no ato de dar (ou não dar) uma esmola do que na sucessão presidencial de 2014; e disso eu não tenho dúvida.
Sim, também conservo as minhas certezas. Desde que comecei a me entender por gente, e isso faz pouquíssimo tempo, não tenho dúvida de que Paulinho da Viola é uma espécie de representante dos deuses que tem como principal missão na terra salvar a música brasileira da arrogância. Outra certeza é que a seleção brasileira cai nas oitavas de final da Copa do Mundo no ano que vem, mas esta é tão óbvia que devemos até desconfiar. E que se o homem tivesse ido mesmo à Lua, tinha ficado por lá.
De William Shakespeare a Caetano Veloso, todos tiveram as suas grandes questões. A respeito de Shakespeare, aliás, nem se sabe muito bem se ele existiu. Sobre Caetano, não temos essa dúvida, naturalmente, mas muitas outras. Pra começar, Caetano é um gênio ou é um tolo? Francamente, não sei. Quando alguém fala bem do músico, eu tendo a discordar; se alguém fala mal, eu acabo discordando também. Seja como for, o que eu mais gosto no Caetano é que ele nunca foi consenso. Ou não.
“Eu tenho mais de mil perguntas sem respostas”, cantou Elis Regina em 20 Anos Blues, canção sobre os 20 anos de cada um. Vai ver então que dúvida é uma questão de idade. Mas também sobre isso tenho as minhas dúvidas. Crianças fazem mais de mil perguntas para as quais os adultos nunca têm resposta. E dizem também que quanto mais velho, pior é.


(publicado no Diário Catarinense)

2 comentários:

Camila Landon Vío disse...

...para mi pensar las respuestas para las mismas preguntas son diferentes a cada dia, depende de lo que soñaste la noche anterior, depende de lo que comiste al desayuno, depende de la frase que escuchaste en la radio, depende de la basura del vecino....tal vez.

Victor da Rosa disse...

Camila, que legal te ver por aqui!