10.6.13

A novela Neymar

(publicado no Diário Catarinense)

  

Se a ida de Neymar ao Barcelona for eficaz para diminuir as manchetes em torno de seu nome, pelo menos as manchetes que envolvem 1) baladas, 2) namoradas, 3) penteados e 4) sua transferência para a Europa, sem dúvida já será um bom negócio – não sei se bom para o seu pai ou para o tesoureiro do Santos, mas certamente para nós, brasileiros médios que todo santo dia acabamos caindo em algum portal de notícias dos infernos. Ter feito uma ponta em telenovela da Globo não é nenhuma novidade para um jogador que sempre teve sua vida transformada em ficção, boato,  enfim, telenovela da Globo.

Durante este tempo, a minha tia Rosette Rosa – que teve a vida abençoada por duas pensões e, provavelmente por isso, preserva algumas manias estranhas – recortou as manchetes mais curiosas com o nome de Neymar, documento que acaba representando uma história importante do futebol e da imprensa verde-amarela. A coleção da minha tia, em retrospectiva, vai de maio de 2013, quando foi oficializada a transferência do jogador para o Barcelona, até abril de 2010, com a manchete marcante e inaugural do jornal Estado de São Paulo: “Quero um Porsche e uma Ferrari na garagem”, disse Neymar na ocasião.

















Neymar nunca foi polêmico, como Maradona e Sócrates foram em seus bons tempos, apenas para citar os exemplos mais óbvios. Neymar sempre foi bastante deslumbrado e desinformado, o que não deixa de ser um pouco natural. Ou seja, sempre esteve do lado do senso comum. Na mesma entrevista, o jogador diz que jamais sofreu racismo porque, né, ele não é negro, e duas linhas depois revela que alisa o cabelo a cada 20 dias porque é meio enrolado – o cabelo, no caso. “Sou meio maluco, né?”, pergunta ainda na mesma entrevista, sem qualquer indício de autoironia.

De lá pra cá, pouca coisa mudou. Neymar continuou dando seus dribles, às vezes cometendo suas gafes e distribuindo manchetes de graça por aí, coisa que nem mesmo um jornalista mais vazado, que é afinal quem escreve e publica o diabo da notícia, é capaz de deixar passar. De fato, quem cruzar os olhos pelas 18 pastas que minha tia Rosette conserva bem guardadas, notará que as manchetes envolvem temas variadíssimos, desde os títulos que conquistou, passando pelas inúmeras comparações com outros jogadores, o fim de seus namoros, sua relação com cantores de pagode e pastores evangélicos, chegando até a cor de sua cueca e os cortes de seu cabelo. Aliás, quanto será que aquele pastor que recebia 10% de seu salário em 2010 está recebendo hoje?

A manchete mais atualizada a respeito de Neymar, isso nas pastas da minha tia, é da última quinta-feira: “Ida ao Barça alça Neymar à 68º posição entre os atletas mais ricos”, título da matéria que estima em R$43 milhões a atual fortuna do jogador, mais ou menos o que eu ganharei em 223 encarnações escrevendo crônicas, caso exista mesmo vida após a morte. Por outro lado, as manchetes do EGO, site também filiado à Globo que se ocupa da vida das celebridades, nos faz lembrar que Neymar é um ser humano igual a qualquer um. “Aos 19 anos, Neymar revela: ‘Já amei 4 vezes’”, anuncia a nossa manchete preferida.

E como a vida do Neymar é uma grande telenovela sem fim, os redatores de sites de humor dedicados às notícias falsas, como o Sensacionalista e o Piauí Herald, também deitaram e rolaram inventando manchetes do jogador e enganando muita gente que já não sabe mais o que deve ser efetivamente uma notícia. Afinal, não seria nenhuma surpresa pensar que “Circo Vostok faz proposta por Neymar” ou que “Neymar cita barroco mineiro como maior influência no seu futebol”. Dá pra ler coisas bem piores por aí.


2 comentários:

Anônimo disse...

Não curto a grande mídia e acho que ela deve ser realmente o foco de ataque nesse país, mas ataque de verdade. Agora, pensar no Neymar também pode ser feito pelo lado positivo. Um cara que trabalha muito desde cedo e é bem recompensado por isso. Não há o que falar sobre isso... É verdade, ele trabalha muito, também não é traficante, nem bandido, como talvez seria se não fosse o futebol, o pai dele, entre outras coisas. Vários bandidos queriam ser jogadores de futebol. Também várias crianças que as pessoas não dão esmola, pq acham que isso incentiva os mesmos a continuar pedindo, viram bandidos e a falta de esmola contribui tanto quanto a presença. Cuidado com a inveja de ver um preto feliz...

Victor da Rosa disse...

Olha, não estou falando a respeito de merecimento, destino e muito menos de inveja, e sim de jornalismo e sobretudo de ficção. Neymar é apenas o caso sintoma. Abraços.