26.6.13

Cavaleiro sem cavalo


(texto publicado no blog do Instituto Moreira Salles)

Em 2007, tive a oportunidade de visitar o editor, poeta e tipógrafo Cléber Teixeira em sua casa em Florianópolis. Quando cheguei, Cléber primeiro me levou para tomar um café na cozinha, onde havia livros entre as latas de biscoito e, se lembro bem, até em cima da geladeira. Na verdade, somando cozinha, sala e corredor, devo ter cruzado com cerca de 5 mil livros. Mas o que devia impressionar não era tanto o número, e sim a disposição: os livros, em vez de organizados em um só cômodo, estavam espalhados pela casa, tomando conta de tudo. Apenas quando terminamos o café, para minha surpresa, Cléber sugeriu que eu fosse finalmente conhecer sua biblioteca, no andar de baixo. 

Lá, além das estantes de livros, inclusive com algumas edições raras que por segurança nem podiam ser mencionadas, ficava também a oficina da Noa Noa, editora artesanal que fez história no país e para a qual Cléber dedicou cerca de 40 anos de sua vida. Em uma pequena sala vigiada pelos retratos dele ao lado de alguns amigos, como os críticos literários Davi Arrigucci e Boris Schneiderman, estava a única impressora tipográfica que o editor comprou na vida, em 1965, um modelo raríssimo do século XIX. Foi através desta impressora e de um paciente e caprichoso trabalho de composição que poetas como e. e. cummings e Stéphane Mallarmé deram as caras no Brasil.

A Noa Noa ficou conhecida por editar “livros inviáveis”, segundo definição da jornalista Rafaela Biff Cera, autora de um minucioso perfil escrito sobre Cléber. O editor sempre fez questão de afirmar que só publicava livros de sua predileção, e foi assim que a Noa Noa construiu um catálogo que vai das traduções pioneiras da poesia de Mallarmé feitas por Augusto de Campos, sem dúvida um dos principais parceiros da editora, até uma entrevista com Paul Gauguin, artista que inspirou o nome da editora – “Noa Noa” é o título de um relato em que Gauguin descreve as experiências de uma viagem que fez ao Haiti. Ao todo, foram mais de 60 títulos publicados, um mais precioso do que o outro. De resto, não é nenhum exagero afirmar que Mallarmargem, publicado em 1970 em edição bilíngue e com tiragem de 225 exemplares, só pra ficar no exemplo mais óbvio, é um marco na história da poesia no Brasil.

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