17.6.13

Conversa em tom elevado na mesa do bar


 (publicado no Diário Catarinense)

Pra resumir a ópera, vou dizer apenas que o Impedimento é o único site de jornalismo esportivo que leio todo santo dia, até aos sábados. Feito de maneira totalmente independente, o site, que completou 8 anos de existência dia destes, reúne gente de todo canto da nação. Quanto a Douglas Ceconello, cronista e um dos fundadores do Impedimento, que parou sua vida pra responder estas perguntas, basta declarar publicamente que sinto profunda inveja dos seus textos. A seguir, algumas partes da conversa que tivemos, em que Douglas chegou até a cornetear a seleção.

O Impedimento recentemente fez 8 anos e cresceu muito nos últimos meses. Por que o site foi criado? E qual você acha que é o papel do site hoje?

A ideia de criar o Impedimento surgiu por uma necessidade que tínhamos de cavoucar informações de times sul-americanos. A ideia original era de um programa de áudio, que chegamos a fazer em 2003, era meia hora falando do campeonato venezuelano e outros similares e corneteando o ROBINHO. 
Depois, o programa deixou de ser gravado, ficamos um tempo parados e em 2005 voltamos com blog. E nesta nova PLATAFORMA a gente precisou mudar, e daí surgiu uma variedade de estilos e abordagens, mais literária ou cultural ou bem-humorada ou jornalística de FATO.











Acho que o impedimento é uma mistura entre bom jornalismo, muita criatividade e certo desvario. Além disso, o site também abre espaço pra abordagens e assuntos diferentes, como o futebol amador.

Acreditamos que podemos fazer matérias diferentes, crônicas ENVIESADAS e análise de jogos pouco ortodoxas. Procuramos fazer jornalismo de forma inusitada, mas sem cair na palhaçada e no humor rasteiro, com um pouco de delírio, uma liberdade quase irrestrita e uns cachorros invadindo o campo. Não existe um estilo do Impedimento, existem várias formas de escrever e várias abordagens. Também abordamos temas não tão MIDIÁTICOS porque o futebol, como REFLEXO da cultura, não depende de holofotes, bem pelo contrário. Muitas vezes, quanto maior a FRUGALIDADE, maior o arrebatamento.

Desde o começo do Impedimento, o site se dedica ao futebol sul-americano. Por que essa opção?


Jamais nos passou pela cabeça mudar o BORDÃO de "solamente futebol sul-americano" porque sempre achamos que o futebol europeu tem espaço demais. A gente não sabe o que acontece no próprio continente, mas está bem informado do que ocorre na França, que é tão importante para o futebol quanto um carrapato para a física nuclear. A nossa ideia sempre foi PROPAGAR informação sobre os times que aprendemos a gostar vendo na Libertadores e outro menores que fazem o futebol no continente. 


Como você percebe o jornalismo esportivo feito hoje no brasil?

Não só no Brasil, mas na maioria dos lugares o jornalismo esportivo é repetitivo, provavelmente por necessidade dos veículos, para se ajustar à competição. Mas há coisas boas, sem dúvida. A ESPN Brasil faz um trabalho de muita competência, assim como vários blogs independentes. Sinto falta de reportagens de fôlego, de coberturas internacionais com conteúdo além do jogo e de textos de partida mais criativos.

O que você tem pensado sobre a preparação do país pra Copa do Mundo?

Acho sensacional a realização destes grandes eventos, mas especificamente sobre a Copa não gostaria que viesse para o Brasil. Acho que o país teria outras coisas pra se preocupar e, além de tudo, há um desespero por investir que faz dinheiro ser jogado fora. No entanto, acho um negócio muito COITADINHO esta constante decepção de "ó, não temos infraestrutura, não falamos francês, o que vão pensar os turistas?". A maioria destas exigências da FIFA é uma frescura sem tamanho. Na África do Sul, ninguém podia pegar um TÁXI porque as chances de ser assaltado ou morto eram enormes. Durante a competição, o entorno do Soccer City era uma zona de guerra, com caminhão do exército, barro vermelho e arame farpado. No Ellis Park, no jogo entre Brasil e Coreia do Norte, faltou luz duas vezes no entorno, incluindo áreas de alimentação e banheiros. Então temos de parar com este sentimento de submissão. A Alemanha teve uma Copa mais organizada porque é um país de primeiro mundo, mas a Copa do Mundo sempre vai sair DE QUALQUER JEITO, se é algo bom ou ruim é outra história.

E a seleção brasileira?

Acho muito fraca e prevejo que será eliminada por Portugal nas oitavas, o que será uma forma de lembrarmos que a Independência do Brasil foi um SIMULACRO de cisão.

Sobre suas crônicas, você construiu um estilo muito forte e particular e, talvez por isso, volta e meia alguém sai dizendo que você é o novo Nelson Rodrigues. Como se sente?

Este tipo de comparação, obviamente, é um absurdo. Mas o legal nestes delírios é que prova que muitas pessoas gostam da forma como tento me COMUNICAR e travar contato com elas. Penso que escrevo na maioria das vezes como quem conversa em tom elevado numa mesa de bar, após um jogo, já sob INFLUÊNCIA de algumas cervejas. Mesmo que eu esteja tomando SUCO DE PÊSSEGO e sentado na frente do computador, sozinho, catando milho em mais uma madrugada de dedicação ao Impedimento. 



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