24.6.13

Impasse Livre


(publicado no Diário Catarinense)

Nunca antes na história desse país tantas pessoas mudaram tantas vezes de ideia em tão curto período de tempo, e isso não me parece ruim. Com exceção do Romário e do Pelé, que protagonizam a mesma discussão há mais ou menos 15 anos, todos os outros setores da sociedade estão confusos. “Quem não estiver confuso, não está bem informado”, resumiu o poeta carioca Carlito Azevedo, provavelmente com razão.









Primeiro foi a polícia de São Paulo. Em menos de uma semana, a polícia 1) desceu o sarrafo em manifestantes, 2) garantiu a segurança dos manifestantes no dia seguinte, com um discurso de paz, e 3) sumiu completamente das manifestações alguns dias depois, deixando a cidade entregue ao acaso. Em Belo Horizonte, só mudou a ordem e a intensidade – primeiro veio o discurso de paz, depois o sarrafo, e por fim o sumiço. Em várias cidades de Minas Gerais, curiosamente, as manifestações estavam proibidas durante o período da Copa das Confederações, sendo crime se alguém saísse nas ruas em protesto contra qualquer coisa, mas nem por isso Aécio Neves deixou de lançar uma nota, enquanto o trem já pegava fogo, afirmando que “os jovens ganham as ruas e precisam ser respeitados”. Antes não precisava?

Algumas personalidades da grande mídia também ficaram confusas, não sabendo definir com precisão o que era mais conveniente defender. “Mas afinal o que provoca um ódio tão grande à cidade?”, perguntou Arnaldo Jabor no dia 12, quando as manifestações recém tinham começado, e voltou atrás no dia 17, afirmando que o “Movimento Passe Livre expandiu-se como uma força política original”. Se Jabor precisou de 5 dias pra mudar de opinião, pra Datena alguns minutinhos foram suficientes. Depois de fazer uma pesquisa claramente tendenciosa, ao vivo, perguntando se o telespectador era a favor de manifestação “com baderna”, e diante do resultado surpreendente de que, sim, mesmo com “baderna” a grande maioria era a favor de sair às ruas, o apresentador gaguejou 11 vezes.

















O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e o respectivo governador, Geraldo Alckmin, que afirmaram, no começo das manifestações, que não existia a menor possibilidade de baixar a tarifa dos transportes, exibindo tabelas, gráficos, números e tudo isso que faz a gente ter certeza das coisas, também mudaram suas posições, lembrando aquela canção de Roberto Carlos cuja matemática não fecha. Pouco mais de uma semana depois, como se sabe, a tarifa foi reduzida, e não apenas em São Paulo, mas também no Rio de Janeiro e em outras dezenas de cidades brasileiras.

Conversando com as pessoas e lendo comentários nas redes sociais, dá pra perceber que nem mesmo a maioria dos manifestantes, a estas alturas, sabe bem o que quer. Em Florianópolis, pelo que pude perceber, muitas pessoas que dormiram cheias de alegria na última terça-feira acordaram tristes e desanimadas na sexta, alegando, com certa razão, que o movimento tomou rumos conservadores. Na terça, a pauta era redução das tarifas; na quarta, contra a corrupção; na quinta, pelo fim do funk alto no ônibus; na sexta, pela ressurreição de Getúlio Vargas; e no sábado, finalmente, em defesa do retorno de Jesus. “Tem tanta coisa errada que não cabe em um cartaz”, escreveu outro manifestante.

Enquanto isso, no entanto, Gisele Bündchen continua fazendo yoga pelas manhãs e Neymar, pra surpresa de quem ainda liga pra futebol, garante os seus golzinhos na Copa das Confederações.

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