3.6.13

Não li, não vi e não gostei

(publicado no Diário Catarinense)

“Leia antes de bater”, diz a sinopse do livro do Lobão, do qual eu não lembro agora o título. Neste aspecto, fico com o comentário de Oswald de Andrade a respeito de um romance de José Lins do Rego: “Não li e não gostei”. Na maioria dos casos, não tem erro.

De fato, existe uma série de livros e filmes sobre os quais a gente nem gostaria de fazer juízo, pois assim o futuro deles dentro do nosso coração seria apenas o descrédito, a indiferença e, na melhor das alternativas, a completa ignorância, e quanto a isso ninguém deve discordar. Por exemplo, o livro do Lobão. Não vou dizer que gostaria que o livro não existisse, pois aí também já seria fascismo, mas eu gostaria, pelo menos, de ter a oportunidade de nem saber da sua existência. Não é o caso. Por isso a fórmula mágica de Oswald torna-se uma espécie de antídoto contra ideias ruins: não li e não gostei.

Como se sabe, “fale mal de mim, mas fale” é uma imposição de mercado como todas as outras, imposição talvez um pouco mais arriscada, mas nem tanto; na verdade, o principal risco é o autor levar um soco de algum maluco no aeroporto, sobretudo agora que o prefeito carioca está dando seu exemplo. Digo melhor, diferente de todas as outras imposições de mercado, cujos objetivos consistem sempre em nos convencer de que qualquer bobagem agora é algo absolutamente indispensável em nossa vida, Lobão tem o agravante de ser chato. Ou seja, além de perder tempo e dinheiro, você ainda se irrita.

Também não vi e não gostei de Elena, o melhor documentário brasileiro dos últimos 15 dias que tornou-se obrigatório assistir, pelo menos se você não quiser ficar por fora dos debates entre casais na quinta-feira à noite. O trailer, a sinopse e uma análise de Inácio Araújo, crítico que se deu ao trabalho de permanecer no cinema do início ao fim, o que consideramos uma atitude muito bonita de sua parte, foram suficientes pra perceber que o filme faz sucesso porque é de uma terrível e constrangedora invasão de privacidade.

O roteiro de Elena é digno de uma novela de Manoel Carlos, e poderia se chamar Por amor, Amor à vida, Viver a vida ou Páginas da vida, só que ainda com pretensões de ser “poético, denso” e explorando a forma do documentário com uma estética de instagram, o que deve torná-lo ainda mais invasivo. Que tenha sido a própria irmã que divulgou a vida e as imagens íntimas de Elena, não muda muita coisa. Na verdade, talvez piore.

O que Elena faz, ao acabar com a própria vida porque, supostamente, não conseguiu o sucesso almejado em Hollywood, é um erro psicológico construído em cima de um sonho equivocado, e não exatamente um bom tema de documentário ou uma excelente história. Se Elena não sabia que Hollywood é um sonho que só se constrói em troca da destruição da vida das pessoas, sua irmã teve tempo pra descobrir, coisa que também não fez.

Depois, um filme que investe tanto em publicidade, como já virou regra em grande parte do cinema brasileiro, com propagandas mil de atores globais contando seus “insights” e falando bobagem, como comparar o filme com a obra de Clarice Lispector por sua “inadequação”, merece não ser visto mesmo. O que tem de inadequado em querer beijar a boca do Frank Sinatra?

Enfim, cada um escolhe a maneira como prefere perder o seu tempo; lembrando que perder tempo é uma das coisas mais sagradas da vida, e não é algo que mereça ser desperdiçado em coisas tão sérias.














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