2.6.13

Os gigantes da praça do Papa


É provável que a mais recente peça do Grupo Galpão, Os Gigantes da Montanha, tenha levado mais gente à praça do Papa do que o próprio João Paulo II levou quando visitou Belo Horizonte em 1980, e os mais otimistas dirão que se trata de uma excelente notícia. Talvez seja. Só que é provável também que em 1980 os fiéis tenham saído de lá mais felizes e com mais fé na humanidade.  

As mais de 5.000 pessoas que, como eu, ficaram do meio da multidão pra trás, mesmo as mais determinadas, destemidas e concentradas, tiveram que presenciar outra peça de teatro, cujo principal argumento consistia em centenas de pessoas fazendo coro para que outras centenas de pessoas sentassem, coro acompanhado por mais uma centena pedindo que aquela primeira centena fizesse silêncio. E assim foi até a metade da peça, quando a situação começou a ficar mais periclitante, momento em que dois homens só não foram às últimas consequências porque um deles era bem menor do que o outro e deve ter achado melhor se refugiar atrás da árvore.



















Tudo começou quando um pequeno grupo de umas 10 pessoas se recusou a sentar, permanecendo na frente de umas 500, segundo rápida e imprecisa contagem feita por nossa equipe. A partir daí uma série de ofensas começou a ser lançada em coro junto a bolinhas de papel, galhos de arvoredos e latinhas vazias. Um homem alto de cabelos brancos era chamado de Clodovil, um loiro hippie e cabeludo de Valderrama e uma garota obesa simplesmente de “bunduda!, bunduda!”, uma referência a sua portentosa natureza que permanecia diante dos olhos que, se pensarmos que somam dois por pessoa, chegavam a uns 1.000.

Você percebe que é hora de voltar pra casa quando não consegue mais se identificar com nenhum dos grupos, mas ainda assim continuei, afinal minha primeira e única experiência com o Galpão, quando pude assistir Um Trem Chamado Desejo no Festival de Curitiba, há mais de 10 anos, tinha sido inesquecível. Então um rapaz, chateado com a insistência do grupo que permaneceu de pé, para o delírio do grupo sentado, foi pessoalmente tirar satisfações, se colocando diante da garota “bunduda” que, agora provavelmente por birra, liderava o grupo de resistentes. Foi o primeiro empurra-empurra da noite.

O segundo empurra-empurra aconteceu logo depois, quando outro homem teve a ideia de passar dissimuladamente ao lado do grupo que ainda permanecia em pé, sob mais aplausos irônicos do grupo sentado, com uma garrafa espichando água para todos os lados. Ou seja, duas peças aconteciam. E era possível ainda ouvir gritos de “senta!, senta!” em outros setores da multidão. A peça, de outra maneira, ia fazendo jus ao título, Os Gigantes da Montanha, pois havia dezenas deles, de fato. 

Não sei o que constará nos relatórios que chegarão à mesa da presidenta Dilma, mas será um erro afirmar que a peça foi vista por tanta gente quanto pareceu. Afinal os outros gigantes da montanha, que não exatamente os gigantes de Pirandello, também estavam lá.


















A primeira foto foi roubada da página do Galpão. A segunda é minha mesmo e tem por objetivo mostrar a felicidade do vendedor do algodão doce.

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