1.7.13

Cego em tiroteio


(publicado no Diário Catarinense)



1. Eu disse isso no começo das manifestações e continuo acreditando na mesma coisa: não faz qualquer diferença ser “contra ou a favor dos atos de vandalismo e depredação de patrimônio” nas manifestações. Isso é olhar a situação através do ponto de vista da justiça e da moderação, que já foi para o Beleléu quando um militar resolveu mirar na cara de um civil e atirar; ou ainda antes, no massacre cotidiano que as pessoas sofrem para poder tocar suas vidas.

2. Depois de praticamente todos os jogos da Copa das Confederações, os arredores dos estádios ficaram devastados – lojas foram saqueadas, automóveis depredados etc. –, mas os próprios estádios permaneceram intactos; e o que me parece o mais surpreendente de tudo, vendo as imagens, por algum motivo que não sei bem explicar, são os estádios intactos.

















3. Acabo de ver um vídeo das manifestações no Rio de Janeiro em que cerca de 200 manifestantes, com pedras e barricadas, forçam um “caveirão” a dar meia volta. Pra quem não sabe, caveirão é o nome popular de um carro blindado usado pela polícia carioca para fazer incursões nas favelas. No Rio de Janeiro, o caveirão é o signo mais evidente da repressão policial. De maneira que, por mais contraditório que isso pareça, expulsar o caveirão com pedradas pode ser percebido como um gesto radical de repúdio à violência.



4. O que nós, a classe média brasileira, estamos vendo hoje nas ruas e até mesmo na televisão acontece há décadas, e de maneira bem pior, em todas as periferias brasileiras. Na semana passada, na favela Nova Holanda, zona oeste do Rio de Janeiro, mais ou menos dez pessoas morreram depois de uma invasão do Bope, entre eles um sargento e sete moradores.

5.  A mais nova arma usada por parte da polícia brasileira para conter as manifestações chama-se canhão supersônico. Segundo relatos, o sistema, conhecido também como “inferno”, funciona com uma espécie de alarme que utiliza quatro frequências simultâneas e ao entrar em contato com o alvo, seja ele uma pessoa ou um animal, deixa a vítima desorientada, causando tonturas, náuseas e fortes dores no peito. “Pra quem escuta Quadradinho de 8 – diz um manifestante carioca – isso aí é moleza”. No entanto, quem já chegou perto de um canhão supersônico em atividade garante que não é bem assim.

6. Na última quinta-feira, li a notícia de que a Polícia Civil do Rio de Janeiro apreendeu um livro na casa de um manifestante. “Mate-me por favor” conta a história do movimento punk através de uma série de entrevistas com artistas do movimento. O delegado, que se chama Mário Andrade, quase igual ao escritor modernista brasileiro, disse que o livro demonstra “a ideologia anarquista frente a nação brasileira”. Depois do porte de vinagre e porte de máscara, agora é crime também porte de livro sobre história da música.

7. Fui a duas manifestações, pois acredito que há muitas coisas erradas no país e algumas coisas só mudam mesmo com pressão social, e nas duas fui recebido, apenas porque estava lá, com bombas de gás e tiros de borracha, que felizmente não me acertaram. O mesmo aconteceu com o cearense Silvio Mota, 68 anos, juiz aposentado que, bem mais corajoso do que eu, ficou conhecido por permanecer parado cara a cara com vários militares da tropa de choque, que lhe receberam com certa hostilidade até que ele mostrasse sua documentação. Sua foto saiu na capa do New York Times.

8. Enfim, é um assunto complicado.

A primeira foto é do coletivo Maria Objetiva.

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