12.8.13

O pão ou a manteiga


(Publicado no Diário Catarinense)



O grande acontecimento literário do século XIX, segundo nos ensinam aqueles historiadores que possuem poucas ideias na cabeça e alguma maldade no coração, não foi a publicação de um grande livro e muito menos a fundação da Academia Brasileira de Letras, e sim a realização do primeiro recenseamento geral do Império, feito em 1872 e divulgado 4 anos depois. Trocando em miúdos, foi quando os escritores nacionais descobriram, após anos de ilusão, que escreviam basicamente pra ninguém. Vá lá, pra uns 40 ou 50 desocupados. Foi uma tristeza geral.

O recenseamento trazia alguns números sobre o índice de alfabetização que eram mais desanimadores do que Papai Noel desempregado. Na verdade, não havia nenhuma notícia boa. Enquanto na França o número de pessoas que sabiam ler e escrever chegava a quase 80% da população, no Brasil não passava de 20%. E literatura, quem lia? E literatura nacional? E quem comprava livros? O número de tiragens, que ficava em torno de mil e raramente chegava à segunda edição, indicava que pouquíssima gente investia seu rico dinheirinho em literatura. Provavelmente só os melhores amigos dos escritores, os piores inimigos, os críticos (quando muito) e mais umas madames infelizes no casamento.

Pior do que isso ainda, lembrando aquele adágio popular de que “o melhor amigo do ruim é o pior”, ou talvez alguma coisa muito semelhante a isso, era a falta de perspectiva no futuro. Porque quando o presente é ruim e o futuro promissor, a gente se agarra no futuro com a convicção de um guarda-roupa embutido e vai levando a vida. Não era o caso. Pra resumir a ópera, o recenseamento trazia a dramática notícia de que 79% das crianças livres sequer frequentavam as escolas.

Na verdade, todo o sistema literário era capenga. O escritor João do Rio, ao elogiar a profissionalização da atividade literária em texto já do século XX, lembra que os livros não são mais vendidos por “um preto de balaio no braço”, imagem que tem, por incrível que possa parecer, total fundamento histórico. Não há escritor no século XIX que tenha vivido da atividade literária. Como dizia naquele tempo um crítico literário bem humorado, “as letras no país dão para o pão, mas não para a manteiga.”

O diabo é que escritores como José de Alencar, Aluísio Azevedo e mesmo Machado de Assis acreditavam piamente que o Brasil era tipo a sala de estar da família Moreira Salles. Isso antes do recenseamento. Depois, quando perceberam que estava mais para a cozinha da Claudia Leite, foi uma choradeira danada. Eu não estava lá e por isso não posso dar mais detalhes sobre como essa ilusão foi mantida por tanto tempo, mas o fato é que foi. José de Alencar inclusive acreditava que sua literatura mudaria o país e passou anos discutindo a construção da identidade e o gosto dos leitores brasileiros. Trabalho jogado fora. Como cantou Oswald de Andrade algumas décadas mais tarde, já com toda a documentação em mãos, o Brasil na verdade era “uma república federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus.”

A situação, seja como for, não deixa de ser curiosa e até mesmo, pelo menos para os espíritos mais brincalhões, também engraçada. Machado de Assis, poucos anos depois da descoberta, através de seu mais importante personagem, no prefácio das Memórias Póstumas de Brás Cubas, confessa não se admirar se seu livro fosse lido por cem leitores, talvez cinquenta, vinte ou mesmo dez. Quem sabe cinco? Por outro lado, Aluísio Azevedo, o escritor que no fim das contas mais vendia no país, escrevia em tom de desabafo: “Escrever pra quê? Pra quem? Não temos público. Anchieta ao menos tinha um leitor – o mar. E eu?” Era uma boa pergunta.

PS: Não poderia deixar de agradecer a meu “reserva de luxo” Fábio Lopes, que me substituiu brilhantemente aqui no último mês e me obriga agora a mostrar melhor serviço, sob pena de esquentar em breve o banco de reservas.

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