2.9.13

Danço eu, dança você


(Publicado no Diário Catarinense)


Em pelo menos um aspecto, ilusão é igual barriga: quanto antes perder, melhor. Quando você tem 19 anos e quer emagrecer, bom, é só parar de comer biscoito recheado com refrigerante na hora da janta, que é a refeição predileta do atacante do Goiás, e nem precisa pensar muito no assunto, automaticamente a pessoa fica esbelta. Só que depois dos 30, já viu. Acompanha o drama. Tem que 1) comer bem, o que geralmente quer dizer comer mal, ou seja, rúcula e sopa de beterraba; 2) fazer academia 4 vezes por semana, atividade que só é legal no primeiro mês e 3) repetir a operação eternamente. Mas todo mundo já sabe disso.

O assunto da crônica de hoje é outro. Eu sempre digo nas minhas palestras que ilusão também funciona assim: perca antes dos 19. Pergunte-me como. Duas coisas que não servem pra nada nessa vida: ilusão e expectativa. Não sei o que é pior. Aliás, expectativa só serve pra pessoa achar que o último filme da Sofia Copolla é ruim. Ora, às vezes é só um filme curioso, divertido, sei lá, nem serve pra ruim, mas a pessoa vai ao cinema esperando encontrar a última cereja do bolo, pois passou 6 meses lendo furos de reportagem sobre os bastidores da filmagem, aí fica chateada. De qualquer maneira, eu não assisti o filme ainda, e talvez seja ruim mesmo.


















Bom, nessa semana eu conversei com um amigo sobre perder ilusões. Ele me disse que a primeira ilusão que perdeu na vida, quando ainda era criança, aconteceu devido a uma falha técnica. Meu amigo estava assistindo a um teatro do Peter Pan e na cena final, quando o personagem deve sair voando com sua companheira Sininho, vigiado pelo Capitão Gancho querendo seu couro, arrebentou a corda de sustentação e o ator se estatelou no chão. E ali ficou. Na hora da queda todas as luzes do teatro se acenderam e os atores foram ver se estava tudo bem com o Peter Pan, inclusive o Capitão Gancho, que de uma hora pra outra deixou de ser vilão. As crianças choravam, os pais não sabiam o que fazer. Enfim, acabou totalmente a magia.

Esse meu amigo, que é pródigo em contar histórias que jamais saberemos se são tristes ou engraçadas, também lembrou de um dia em que o saudoso Beto Carrero, com seu inesquecível cavalo Faísca, escorregou na areia e, trocando os papéis com Peter Pan, voou em direção à vergonha pública.

O pior, no entanto, aconteceu com uma prima que era muito fã da Turma da Mônica: ela visitou um parque temático quando era criança e teve que assistir a Magali urinando no canteiro. E a Magali era um homem barbudo! Segurando a máscara da Magali com uma das mãos e cuidando da vida com a outra, o anti-herói dessa história, que nem deve ter feito por maldade, tornou-se o principal responsável pela destruição dos sonhos infantis dessa menina.

Lembro apenas de histórias infantis porque elas são mais marcantes, além de graciosas, portanto ficam guardadas em nossos corações com a persistência de uma saúva, mas a verdade é que sempre há tempo pra perder ilusões. Meu avô, por exemplo, passou praticamente a vida inteira acreditando que doença nenhuma seria capaz de lhe derrubar, por isso jamais colocava o pé em um consultório médico, até que teve um negócio feio e só então abandonou a ideia de que seu corpo era “fechado”. Por sua vez, o escritor Machado de Assis passou a escrever bem realmente depois que, segundo suas palavras, “deixou de acreditar no homem”. Em ambos os casos, perder a ilusão só trouxe benefícios.

Se “o sábado é uma ilusão”, como disse Nelson Rodrigues, a segunda-feira, não.

Nenhum comentário: