9.9.13

Luz na passarela


 (publicado no Diário Catarinense)

 Com a recente aprovação pelo MinC de projetos na área de moda, através da Lei Rouanet, envolvendo nomes de estilistas como Alexandre Herchcovitch, Pedro Lourenço e Ronaldo Fraga, além de cifras que chegam a quase R$ 3 milhões, criou-se uma polêmica interessante, embora às vezes previsível, entre vários setores da inteligência brasileira, e nem poderia ser diferente, afinal se trata de dinheiro. De resto, polêmica quase sempre é bom. Vamos por partes.

De um lado, tanto os representantes do MinC quanto os profissionais da moda argumentam que “moda é cultura”, no que estão certos, e defendem a inclusão da moda na Lei Rouanet como “quebra de paradigma”. Por outro lado, alguns argumentos de Marta Suplicy, a ministra, me parecem especialmente problemáticos, principalmente a afirmação de que a moda “tem um papel estratégico na internacionalização da cultura brasileira”. Eu não chegaria ao ponto de comparar tal afirmação com a estratégia das ditaduras militares, como faz Maria Rita Kehl em sua carta à ministra, mas é no mínimo um tratamento da cultura (e da própria moda, portanto) como ornamento, perfume, além de provincianismo. O argumento depõe contra a moda, fortalecendo as críticas mais óbvias que se fazem a seu respeito. Que o desfile de Pedro Lourenço tematize o universo de Carmen Miranda, a artista responsável por reafirmar os estereótipos nacionais em Hollywood durante o Estado Novo, é só o sintoma oportunista disso.

















De outro, um intelectual como Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP e colunista da Folha de São Paulo, talvez o principal crítico da “quebra de paradigma” proposta pelo MinC,  fundamenta seus dois textos sobre o assunto a partir de duas definições, ambas limitadas: 1) “moda é desenhar vestidos”, citação de uma ironia do estilista da Chanel, Karl Lagerfeld, e 2) “um quadro não é uma mercadoria”, concepção fundada em sua orientação adorniana. Ora, se estilistas fossem apenas, como quer Safatle, “comerciantes que organizam sua produção a partir das demandas de mercado”, então Hussein Chalayan não teria enterrado um vestido antes do desfile e muito menos Jum Nakao teria feito roupas de papel, sob pena de se desfazerem enquanto seus clientes esperam abrir a sinaleira. Quanto a um “quadro não ser mercadoria”, bom, só se for na galeria da USP.

Além de uma concepção de moda mesquinha em oposição a uma idealização insustentável da arte, seus textos ainda possuem certas pérolas que não são dignas de alguém tão inteligente e bem formado, como: “há de chamar de ‘gato’ um gato” e a reveladora “um quadro não é uma mercadoria, mesmo que tenha um preço”.

Maria Rita Kehl, por seu lado, depois de reclamar que os “Pontos de Cultura criados na gestão Gilberto Gil estão abandonados em muitas regiões do país”, o que sem dúvida é lamentável, argumenta que “fundos públicos só deveriam ser utilizados para possibilitar o crescimento de quem não tem acesso ao dinheiro privado”. Sem entrar nos méritos do argumento, basta dizer que ele nos leva à conclusão de que o MinC deve fechar urgentemente suas portas. De qualquer maneira, não deixa de ser curioso que tal argumento não tenha vindo à luz quando, por exemplo, uma série de filmes com viabilidade comercial e mesmo artistas que vendem muito bem em galerias também aprovaram seus projetos através da Lei Rouanet. Como se pode notar, o debate já não tem nada a ver com moda, e sim com gestão de editais.

Enfim, é bastante provável que a iniciativa do MinC de incluir a moda na Lei Rouanet não tenha começado muito bem, ainda mais com a ministra ignorando as decisões de uma comissão e intervindo pessoalmente para que o projeto de Lourenço fosse aprovado. As cifras e a ideia de “um desfile em Paris” também assustam. No entanto, o debate exige mais do que conceitos fáceis e conclusões apressadas.

2 comentários:

Frederico disse...

As questões levantadas realmente não são simples. No entanto não vejo sentido na sua afirmação de que se a fala de Kehl em prol de projetos de difícil penetração fosse correta o Minc fecharia as portas. Na verdade, o que ela afirma e muitos concordam é que há uma má distribuição dos financiamentos, os quais muitas vezes beneficiam artistas que não precisam deles. Isso inclui artistas plásticos e o próprio cinema também. Infelizmente esta discussão ainda não entrou no espaço público da forma como deveria. Ela começou quando Maria Bethânia teve um projeto aprovado com valor acima da média e era, obviamente, representante de um quadro de artistas que não precisa de apoio governamental tanto quanto outros ver o texto de Kehl). Não acho que a moda esteja sendo alvo de críticas, mas as propostas de política cultural das esferas públicas sim. Qual é a finalidade destes projetos? Reforçar uma certa hegemonia de ações e projetos em todas as áreas de cultura ou fomentar a diversificação e a entrada de quem não tem acesso? Acho que a questão principal talvez seja esta e não se o benefício se destina a uma determinada área ou outra. Parece que os governos não têm claramente definidas políticas culturais e não atuam de forma em que possamos vê-las definidas. Além disso, as leis de incentivo são "controladas" pelo interesse de instituições privadas, que determinam quais projetos serão financiados com o dinheiro público de acordo com sua visibilidade (para a empresa financiadora). Por isso acho que a questão é muito maior do possa parecer à primeira vista e a atitude de Suplicy realmente foi equivocada, já que ela não fez o mesmo por nenhum artista de menor monta que teve seu projeto não aprovado, fosse de que área fosse.

Victor da Rosa disse...

Oi, Frederico, obrigado pelo comentário. Também não acho que a questão seja simples, claro. Vou responder dois pontos de seu comentário.

Meu comentário à carta de Kehl não diz respeito exatamente a "projetos de difícil penetração". Cito o trecho da carta dela que me interessa: “fundos públicos só deveriam ser utilizados para possibilitar o crescimento de quem não tem acesso ao dinheiro privado”. Bom, qual artista, poeta ou músico brasileiro que captou via Rouanet nos últimos 300 (trezentos) anos não tem acesso a dinheiro privado? Uma minoria realmente. Mesmo a literatura, que é a arte pobre, geralmente tem viabilidade comercial. E mesmo assim recebe dinheiro do Estado.

Outra coisa é que o alvo da crítica é a moda, sim, se não tanto na carta de Kehl, com certeza nos dois textos do Safatle. É alvo de crítica porque intelectuais costumam ter preconceito em relação à moda, por aliás nem saberem muito bem o que é.

Também não sei se o MinC deve financiar grandes desfiles de estilistas estabelecidos. Provavelmente não. Há outras demandas urgentes, como organização de acervos e fortalecimento de museus de moda. Mas aí não estou dentro das discussões a ponto de poder opinar. É só uma impressão superficial.