16.9.13

Paraty para ele


(publicado no Diário Catarinense)

Na semana passada, o editor e jornalista Paulo Werneck, 35, foi anunciado como o novo curador da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, provavelmente o principal evento literário do país. Com passagens pelas editoras Companhia das Letras e Cosac Naify, por suplementos culturais importantes e atuando ainda como tradutor de ficção, além de ser filho do Humberto Werneck e amigo do Antônio Prata, o novo curador da Flip tem sua trajetória marcada pela literatura. Enquanto ainda se inteira da “Flip por dentro”, Paulo atendeu nosso pedido: falou de suas expectativas, suas experiências anteriores no evento e lembrou do dia em que Paul Auster parou a Praça Matriz de Paraty com uma palestra sobre notas de rodapé.
















Em sua trajetória, você desenvolveu principalmente as funções de editor e tradutor. Como encara o convite para desempenhar uma função totalmente diferente, no caso a curadoria de um evento como a Flip?

Eu acrescentaria a atividade como jornalista, que durou três anos na redação, mas que eu já exercia de maneira bissexta desde muito cedo. E ainda a de editor de revista literária alternativa, a Ácaro, que foi um laboratório editorial para mim e outros companheiros de geração. Acredito que a Flip tem um pouco de tudo isso, tem a ver com tradução, com escolhas editoriais, com visão jornalística de questões intelectuais. O desafio é totalmente diferente dos anteriores, mas ao mesmo tempo não é, de certa forma.

Você mencionou que foi frequentador das edições anteriores da Flip, seja por conta do trabalho ou como espectador, e que a festa foi importante inclusive pra sua formação. Isso significa que o evento, embora mais ou menos recente, já faz parte do calendário cultural brasileiro. Pode-se dizer é uma nova fase da Flip?

É natural e saudável qualquer renovação geracional, mas na verdade  eu sou da mesma geração dos últimos curadores – Miguel Conde, Flávio Moura e Cassiano Elek Machado. Não acredito que haverá ruptura, uma "nova fase", apenas a natural contribuição dos que vão chegando. Na Flip, a fronteira entre o espectador comum e o profissional da indústria editorial ou jornalista, por exemplo, não é tão nítida, todos se sentem um pouco de cada coisa. Essa sensação rompeu com certas hierarquias do mundo cultural e hoje faz parte do clima da festa.

Você disse também que, como frequentador da Flip, fez descobertas literárias e conheceu mestres para a vida inteira. Durante estes anos, o que te marcou da programação da festa?

Vivi momentos memoráveis, muitos  por questões afetivas – cito as mesas de meu pai, Humberto Werneck, com Xico Sá, em 2008, e António Lobo Antunes, em 2009. Ou a participação dos meus amigos Chico Mattoso e João Paulo Cuenca na primeira edição da festa, com o livro especial Parati para mim. Sempre tive muita interlocução com os curadores, foi um espaço importante para minha atividade como editor e como jornalista também. Lembro que, logo nas primeiras edições, ter visto Paul Auster parar a praça da Matriz para ouvi-lo falar sobre notas de rodapé foi uma coisa emocionante, inesperada no nosso país. Hoje faz parte da nossa vida.














De que modo você pretende contribuir com um olhar diferente e particular sobre o evento? Já deu tempo de pensar nisso?

Não. As ideias estão surgindo e nada, absolutamente nada, está definido. E sobretudo estou conhecendo melhor a Flip por dentro, conversando com Mauro Munhoz, Liz Calder e outros profissionais que fizeram a Flip ser o que é.

Desde o fim da edição passada, existe uma forte campanha entre jornalistas e escritores para que Lima Barreto seja homenageado na edição de 2014. Suponho que você já esteja sofrendo "assédios" a este respeito.

Se há campanha ou lobby, acho saudável, a Flip realmente movimenta o debate. A ideia é essa. Até pouco tempo atrás só se debatia quem ia ser técnico da Seleção. Claro que Lima Barreto é um autor de primeira e daria uma bela Flip, tem uma obra atual, que vem sendo discutida, redescoberta, reeditada. Muitos outros autores também renderiam Flips incríveis e surpreendentes. Essa é uma doce decisão que  ainda não foi tomada.

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