23.9.13

Quer alegria maior que isso?

(publicado no Diário Catarinense)


Assim como sua literatura, Veronica Stigger está sempre rindo nas fotos, mas o leitor que não se engane, pelo menos não inteiramente: há algo de venenoso por trás do riso que predomina em seus livros. Gaúcha, mas vivendo há mais de 10 anos na capital paulista, Stigger acaba de lançar um novo livro pela Cosac Naify, o primeiro romance, que recebeu um título em polonês: Opisanie świata – significa “descrição do mundo”. Cada vez mais festejada no Brasil (e mais conhecida também do público catarinense, por ter lançado um livro recentemente pela editora Cultura e Barbárie), a autora aceitou responder algumas perguntas sobre o novo romance, em meio a uma pequena temporada de lançamentos pelo sul do país, depois de uma “noite mal dormida”, enfim. Vamos a elas.

[foto: Karime Xavier Folhapress]




















Vamos começar pelo começo: o título. Onde você encontrou um título tão estranho?
Opisanie świata é o título de um conjunto de gravuras do artista Roman Opalka, que eu estava estudando lá por 2006, 2007. Foi pesquisando o que significa “opisanie świata” que descobri que era como se traduzia para o polonês Il Milione, de Marco Polo. Ao mesmo tempo em que estudava Opalka, estudava também as esculturas da série Amazônia, de Maria Martins. Em função dessas pesquisas, o meu marido, Eduardo Sterzi, um dia, se virou para mim e veio com a provocação: por que tu não escreves um romance que começa na Polônia e termina na Amazônia? Adorei a ideia. Decidi então fazer um livro de viagem. O título, para mim, não poderia ser outro: Opisanie świata.
Existe certa dificuldade pra enquadrar sua literatura em um gênero: conto, poesia, teatro etc. Em Opisanie świata, com narrativa mais longa, mas nem tanto, você faz sua estreia no terreno do romance. Foi diferente escrever um romance?
Sim. O conto é uma forma concentrada, com menos personagens e ações. O romance, ao contrário, flerta com o excesso, e eu fiz questão de trabalhar com vários personagens e, principalmente, com várias situações, o que, para mim, era inusual.
Tenho a impressão de que sua literatura conjuga, por assim dizer, o fácil e o difícil. Por um lado, tem certo sabor de literatura popular; por outro, muita experimentação, elementos raros e eruditos. Como você vê isso?
De fato, acho que meus textos conjugam elementos mais populares e outros mais eruditos. Mas uma das minhas grandes preocupações é usar esses elementos de tal modo que coexistam duas linhas de entendimento: se o leitor perceber as referências, ótimo; se não perceber, não terá problema algum em compreender o que está em questão. O fundamental do texto não está na referência. Claro, se o leitor apreender as referências a outras obras, o meu livro se tornará mais complexo aos seus olhos.
Um dos assuntos mais recorrentes de seus livros é a violência. Você não tem nenhuma pena de seus personagens. E você mesma diz que a violência tornou-se natural em nossa sociedade. Como acha que o escritor pode refletir sobre isso? 
Escrevendo, isto é, elaborando ficcionalmente seu assombro diante desse mundo às vezes tão hostil, mas também às vezes tão maravilhoso. Acho que isso fica claro no Opisanie świata, no qual vida e morte, beleza e horror, andam juntos todo o tempo.
Confesso que dei muita risada lendo Opisanie, embora tenha ficado um pouco impressionado com as cenas de horror. O que você acha de quem lê sua literatura pra se divertir?
Eu jamais reclamaria de uma pessoa que viesse me contar que se divertiu lendo meus livros. Quer alegria maior que isso? Se nós escrevemos, é para provocar reações nos leitores. Não somos donos dessas reações. A apatia, a ausência de reação, sim, seria um problema.

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