28.5.14

Machado de Assis surpreende em novo romance

No começo do ano, o escritor Ricardo Lísias, que edita um ótimo fanzine, o Silva, convidou-me para escrever uma resenha de algum livro clássico como se o livro tivesse acabado de ser lançado. Creio que nos próximos números do Silva outros escritores levarão a ideia adiante, com novas resenhas. Eis abaixo minha colaboração. 


Após a publicação de quatro romances bastante lembrados e saudados nas melhores gazetas fluminenses, Machado de Assis surpreende até mesmo seus leitores mais frequentes, ou principalmente eles, com estas Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro que ainda dará muito o que falar. Verdade que os leitores mais atentos de Machado já tinham alguma notícia do livro através da Revista Brasileira, onde os capítulos foram sendo publicados pouco a pouco durante o ano de 1880, mas agora a edição ganhou um ponto final, ficou acabada e é assim que poderá ser melhor compreendida. 

Convenhamos que existe um abismo que separa o “langoroso idílio” e o “estilo ameno” de Iaiá Garcia, publicado apenas três anos antes, e esta nova obra escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, como bem define o autor – no caso, o próprio Brás Cubas, que assina o prefácio e reivindica a obra como sua. Além do uso de recursos formais até então inexplorados, como é o caso da narrativa em primeira pessoa, Machado de Assis imprime ao livro um ritmo mais febril e o estilo desabusado. No geral, o que antes fazia parte dos bastidores, agora veio à ribalta. Enfim, o que terá acontecido com o escritor durante estes últimos anos? A que conclusões a respeito da vida teria ele chegado? Provavelmente estas perguntas não terão respostas. 

Na mais rigorosa análise do romance, escrita por Capistrano de Abreu e publicada na Gazeta de Notícias, o nosso historiador se pergunta justamente se as Memórias Póstumas de Brás Cubas serão um romance, coisa que o próprio Capistrano responde: “Em todo o caso são mais alguma coisa. O romance aqui é simples acidente. O que é fundamental e orgânico é a descrição dos costumes, a filosofia social que está implícita”. Nisso estamos de acordo, mas o que vem a ser o acidente, no caso? Seria a radical fragmentação e diluição do enredo? E qual filosofia social estaria implícita? De início, o novo romance de Machado de Assis nos leva mais ao exercício da dúvida do que propriamente da conclusão. 

O fio condutor do livro consiste na vida de Brás Cubas, personagem repleto de falhas morais; é egoísta, mesquinho, falso, imprudente e preguiçoso, isso pra dizer o mínimo. Verdade que Brás é também um pouco engraçado, mas seu humor será capaz de lhe pagar todas as dívidas? O que mais surpreende, no entanto, é que nosso personagem em nenhum momento parece interessado em esconder os próprios defeitos, aliás muito pelo contrário, pois eles estão todos expostos na superfície de suas memórias. E isso por um motivo que o leitor, se não é por demais distraído, já deve ter pescado: Brás Cubas tem a franqueza não digo dos velhos, mas dos defuntos, que parece ser ainda mais genuína e eficaz. A rigor, nada mais deve aos vivos. 

Desconfio, no entanto, que a vida de nosso personagem não teria lá muito interesse se fosse contada por terceiros. Em comentário publicado no jornal A Estação, por exemplo, assim aparece resumida a sua história: “Um sujeito nulo que escreve para os jornais, escapa de casar, e morre”. De fato, Brás Cubas não tornou-se deputado, não obteve sucesso com suas invenções, tampouco com seus escritos, não teve filhos e escapou mesmo de pelo menos uns quatro casamentos, por motivos dos mais variados, inclusive porque uma das pretendentes era manca, mas nem por isso abriu mão de redigir suas memórias, talvez a tentativa derradeira de imprimir seu nome na história, como em um epitáfio. 

Não revelaremos todos os detalhes destas Memórias para não antecipar certas surpresas ao leitor, embora a principal delas esteja dita no começo: Brás Cubas morre no final. De qualquer modo, não podemos deixar de dizer que muitos outros personagens também vêm a óbito, pois é a morte, ao lado do dinheiro, o grande tema deste romance. A primeira a morrer é a mãe de Brás, que ficou só em ossos, pois os ossos “não emagrecem nunca”, e esta parece se tratar da única morte verdadeiramente sentida pelo nosso personagem. Logo depois é a vez do pai, mas este se foi “sem a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu”, resume. Quando morrem dois primos e o tio cônego, Brás sequer dedica a eles um capítulo inteiro de suas memórias, se limitando a dizer as seguintes palavras: “levei-os ao cemitério, como quem leva dinheiro a um banco”. 

Se os parentes mortos ocupam um parágrafo inteiro, as mulheres ocupam outro. Uma de suas pretendentes, Eulália morre aos 19 anos por ocasião da primeira entrada da febre amarela, merecendo um simpático epitáfio no Capítulo CXXV e também alguma tristeza de Brás, mas “sem lágrimas”, pois a tristeza vem acompanhada da conclusão de que “talvez não a amasse deveras”. Marcela, a espanhola que lhe partiu o coração nas primeiras páginas, morre nas últimas, “feia, magra, decrépita”. A manca Eugênia, por sua vez, não chega a morrer, mas é como se morresse, conforme irá notar o leitor, afinal há certas situações na vida que são ainda piores do que a morte. 

De resto, além ainda da morte de d. Plácida, do milionário Viegas, do rival Lobo Neves e do improvável amigo Quincas Borba, que além de morrer fica também demente, encontrará o leitor nestas Memórias Póstumas algumas “saudades, ambições, um pouco de tédio e muito devaneio solto”, de acordo com a reflexão que faz o próprio Brás Cubas enquanto “fisga moscas com os olhos”, logo após ser abandonado por Virgília, que não morre. E se o leitor encontrou motivos suficientes nesta breve notícia para adquirir e apreciar o novo romance de Machado de Assis, penso que tem toda razão, mas fica também o aviso de que, além dos personagens, nem mesmo os leitores são tratados no livro muito bem.

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