29.5.14

O romance dos imprevistos

Em Memorial de Aires, talvez como em nenhum outro romance de Machado de Assis, aparece de modo determinante a noção de imprevisto, que é central para entender uma série de relações entre a literatura moderna (depois de Balzac, digamos) e a cidade. Sobre Balzac, o crítico Franco Moretti diz justamente que sua grande invenção consiste em "mostrar que a vida de um rapaz podia ser excitante sem que ela tivesse de naufragar numa ilha deserta, assinar um pacto com o demônio nem criar bonecos homicidas de tamanho real". Isso porque, com as novas formas de relações sociais advindas sobretudo de um regimento capitalista ainda incipiente, a própria vida cotidiana transforma-se em uma verdadeira aventura, bastando acumular algumas notas promissórias ou então se apaixonar por uma atriz leviana, por exemplo. Segundo as palavras de Vautrin, personagem das Ilusões Perdidas, é assim que gira a roda na Paris do século XIX: "ontem à noite no baile da duquesa, hoje de manhã no escritório do agiota".



















A noção de imprevisto, neste romance de Machado, parece se construir de maneira consciente, conforme é possível interpretar do último diálogo entre Aires e Tristão, quando este diz: "Que quer, conselheiro? A vida é assim cheia de liames e imprevistos…". A frase de Tristão possui certo caráter conclusivo e definitivo, como se fosse uma obviedade, mas sabemos também que a vida, até pouco tempo atrás, não era tão cheia de imprevistos assim. No livro, seja como for, as expectativas de felicidade do casal Aguiar são remodeladas a cada página do diário de Aires, através de diversos fatores externos e muitas vezes casuais, que giram em torno principalmente do amor e da política. Para quem não lembra, o casal, que é frustrado porque não teve filhos, possui dois "filhos emprestados", Tristão e Fidélia, e faz de tudo para que ambos permaneçam a seu lado, mas o resultado não depende apenas do desejo, e sim de uma equação cujo resultado final depende muito mais do acaso. No fim, o destino acaba levando ambos para Portugal.

Formalmente, o livro também lida com o imprevisto. A própria linguagem do diário, à sua maneira contingencial e provisória, bem diferente do tom memorialista de Dom Casmurro, parece feita para captar as inúmeras reviravoltas do enredo, mas não apenas isso. Há um trecho especialmente que, em miniatura, e com certo senso de humor, associa a forma do diário aos efeitos da surpresa. No fragmento referente ao dia 30 de setembro, Aires termina reclamando de dores e anotando o seguinte: "Durmo bem às noites, mas não me faz bem andar, dói-me. Amanhã, se não acordar pior, saio." No dia seguinte, no entanto, o autor escreve apenas isso: "Estou melhor, mas choveu e não saí". Enfim, poderíamos talvez pensar que se em Memórias Póstumas de Brás Cubas o personagem é volúvel, conforme a interpretação clássica de Roberto Schwarcz, em Memorial de Aires a volubilidade se apresenta tanto no nível da trama quanto na própria forma de escrita. O romance, no caso, fica sendo as próprias reviravoltas que dá.

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