7.6.14

Lance de dardos (um poema de Ana Martins Marques)


O crítico Murilo Marcondes de Moura já havia notado, na orelha de A vida submarina (2009), que a poesia de Ana Martins Marques sintetiza uma "equação rara", ou seja, "a elaboração dos poemas é concomitante à reflexão sobre o vivido, e nesse estreitamento entre linguagem e experiência talvez resida a [sua] maior força". O comentário é preciso, além do mais, porque afasta a hipótese de que a poesia, e neste caso especialmente a poesia de Ana, deva se comportar como um corpo autônomo, digamos que limpo, sem interferência exterior, embora à primeira vista, talvez pelo extremo zelo de sua escrita, possa passar semelhante impressão. A falsa impressão, no entanto, também parece estar prevista, conforme é possível concluir do aviso estampado no título de seu segundo livro, Da arte das armadilhas (2011). Ou seja, Ana Martins sabe que fazer poemas, além de ser uma armadilha para a própria poeta, é outra também para o leitor. A primeira parte de A vida submarina dá demonstrações variadas disso, que poderiam ser resumidas pela ideia de que quase sempre estamos lendo um poema que não existe, desaparece, falha, se consome ou poderia ter sido feito, mas não foi: "É por isso/ meu amor/ que eu dedico a você/ este poema/ em branco".

Seja como for, um poema como "Dardo", apontado por Murilo Marcondes como chave do primeiro livro da autora, cria um vínculo entre corpo, mundo e poema. Esta interação, no entanto, na poesia de Ana Martins, não é fácil e nem óbvia, mas secreta, submarina, como as armadilhas ou o próprio mar. Aliás, "Dardo" poderia ser tomado assim como uma espécie de programa de sua poesia: "Existe o poema/ um dardo atirado a coisas mínimas/ à noite, às cicatrizes (…)". Trocando em miúdos, a leitura do tema amoroso, por exemplo, não pode ser desligada das ruminações da poeta em torno de seu ofício, coisa que, por sua vez, é também uma forma de se perguntar sobre o mundo, o estado das coisas, a passagem do tempo e a relação com o outro, projeto que Murilo Marcondes chama de "existencial". Assim, um pouco diferente talvez da fórmula inicial do crítico, linguagem e experiência são na verdade uma coisa só. Quer dizer, além de ser um "lugar para pensar", o poema é o próprio pensamento, assim como a invenção (mínima, como se fosse feita por um dardo) de um lugar pra viver.




Dardo

Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mãos pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.

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