1.7.14

Por que não googlas? (um poema de Angélica Freitas)


Creio que ainda não foi devidamente avaliada a relação entre a poesia de Angélica Freitas e o dadaísmo. Em um ensaio sobre a autora, escrito por ocasião do lançamento do seu primeiro livro na Alemanha, Ricardo Domeneck chega a associar os poemas de Rilk Shake (2007) com a poesia "lírico-satírica de dadaístas como Hans Arp e Kurt Schwitters", lembrando também que a poeta brasileira tornou-se "precursora no país da prática que chamamos de googlagem", mas tais relações são apenas mencionadas. Especialmente os "3 poemas com o auxílio do google", presentes em um útero é do tamanho de um punho (2013), por levarem à risca a receita do poema-manifesto de Tristan Tzara, sugerem consequências interessantes. Dividido em três partes, "a mulher vai", "a mulher pensa" e "a mulher quer", o poema de Angélica, de fato, é uma versão digital da "Receita para fazer um poema dadáísta", mas não apenas isso. De maneira irônica e um pouco avessa, o poema também funciona como uma espécie de manifesto feminista, na medida em que expõe, com certa crueldade, um imaginário mais ou menos consolidado em torno da mulher, através de uma verdadeira proliferação de clichês: "a mulher quer ser amada/ a mulher quer um cara rico/ a mulher quer conquistar um homem/ a mulher quer um homem (…)" etc.













Em uma conferência realizada já no ano de 1970, Raoul Hausmann dizia que o dadaísmo foi uma tentativa de "olhar a coisa nos olhos", ou seja, se posicionar frente à frente com a crueldade do tempo. Diferente do expressionismo, que seria, para os dadaístas, "o gesto dos seres cansados, que desejam sair de si para esquecer a época, a guerra e a miséria", os dadaístas escreviam poemas com "o revólver na mão". Nesse sentido, assim como no poema de Angélica Freitas, trata-se de uma literatura não apenas que expõe o absurdo de algo que está excessivamente perto, e não tão longe, como muitas vezes podemos esperar, e sim de uma literatura que também ela própria se expõe ao perigo. E o poema se expõe ao perigo justamente porque opera através do mimetismo, quer dizer, o poema não fala sobre a crueldade, mas revive a crueldade em cada verso. Em outras palavras, o nome do perigo é a falta de sentido. Daí, por exemplo, o tom afirmativo do poema, aliás repetidamente afirmativo, e seco, sem espaço para o meio tom e o diálogo, enfim, tom não exatamente debochado, mas autoritário. É como se os "3 poemas com o auxílio do google" fossem vários homens falando ao mesmo tempo, o que não deixa de ser também outra versão do simultaneísmo proposto por Hugo Ball no Cabaret Voltaire, e não uma conferência sobre os direitos femininos.

Por sua vez, o crítico espanhol Manuel Maldonado Alemán, nas primeiras linhas de um artigo sobre o dadaísmo, lembra que o movimento nasceu, em 1916, como "resposta a uma guerra". No caso, o crítico está se referindo, naturalmente, ao belicismo da primeira Guerra Mundial, mas sabemos que cada época cria as suas próprias guerras particulares. Em um esquema: a estratégia política dadá, que poderíamos chamar de propaganda política, consiste em expor a falta de sentido dos discursos do poder, supondo assim que o leitor tome posição no que diz respeito ao absurdo do mundo em que vive. Escreve Manuel Maldonado: "O dadaísmo supõe uma resposta de certo modo carnavalesca à loucura bélica que impera, e se comporta, dessa forma, como mais um sintoma da falta de sentido de toda uma época e da crise da consciência". Eis uma chave para entender o poema de Angélica Freitas: como apreensão do próprio sintoma do machismo, sua maneira de pensar. Se "a mulher pensa", como indica o título da segunda parte, os primeiros versos estão ali para desmentir: "a mulher pensa com o coração/ a mulher pensa de outra maneira/ a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante" etc.  Creio portanto que o principal mérito dos "3 poemas com o auxílio do google" tenha sido não exatamente uma denúncia, como está claro, e sim a apreensão "neutra", ou seja, com o "auxílio" do google, e daí incômoda, dos clichês em torno da mulher, o que não deixa de ser também uma forma de "resposta a uma guerra".

a mulher quer

a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente
a mulher quer ser possuída
a mulher quer um macho que a lidere
a mulher quer casar
a mulher quer que o marido seja seu companheiro
a mulher quer um cavalheiro que cuide dela
a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar
a mulher quer conversar pra discutir a relação
a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo
a mulher quer apenas que você escute
a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho
a mulher quer segurança
a mulher quer mexer no seu e-mail
a mulher quer estabilidade
a mulher quer nextel
a mulher quer ter um cartão de crédito
a mulher quer tudo
a mulher quer ser valorizada e respeitada
a mulher quer se separar
a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais
a mulher quer se suicidar

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