Segunda-feira, Janeiro 30

Duas mulheres e um segredo

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





Na última quinta-feira, dia 26, duas mulheres morenas, altas e magras, vestidas de maneira inadequada para a ocasião – vestido longo preto, óculos escuros, salto alto, maquiagem e penteado transado, com três ou quatro sacolas de compras em cada mão, com nomes de lojas de roupas e jóias, até onde pude perceber, etc. – foram vistas passeando pelas areias da Praia Mole, em Florianópolis, como se as pessoas fossem as suas próprias vitrines, como se nada estivesse acontecendo em volta delas, rindo alto e conversando sem parar.

Em torno das duas horas da tarde, sob os olhos incrédulos de centenas de banhistas, dezenas de surfistas e mais meia dúzia de salva-vidas, que nada puderam fazer, pois elas não estavam se afogando, mas apenas caminhando na areia, além dos meus próprios olhos e de outros dois amigos paulistanos, que foram obrigados a interromper a conversa sobre qual governador é pior – o nosso ou o deles – as duas mulheres desfilaram durante uns vinte minutos e voltaram para o carro, deixando a marca dos furinhos do salto alto na areia, impávidas, só não parando o trânsito porque trânsito não havia, como se nada mesmo estivesse acontecendo.

E do mesmo modo como entraram na praia – na passarela, no bulevar – elas também partiram: sem falar com mais ninguém, sem tocar a ponta do pé na água gelada da Praia Mole, sem apoiar as sacolas em algum quiosque pra descansar um pouco e tomar um suco, sem nem tirar o salto para caminhar melhor na areia, sem azarar ninguém, ignorando completamente o pequeno alvoroço que criaram entre homens, mulheres, adultos e crianças, enfim, talvez sem encontrar também o que estavam procurando; e o que estavam procurando, afinal?

– Mãããe, aquelas duas moças que estão passando ali são malucas da cabeça ou o quê!? – perguntou um moleque, com a sinceridade que só as crianças podem ter, pergunta que por isso lhe rendeu um safanão.

Uns diziam que as mulheres estavam atrás dos respectivos maridos; outros diziam, com algum exagero, que elas haviam acabado de fugir do hospício; há quem afirmasse que estavam perdidas, embora não parecesse; e há quem dissesse ainda que elas deviam ser duas artistas excêntricas de passagem pela ilha, resquícios do ano novo, antecipação do Carnaval, fantasiadas de peruas, vai saber – mas a verdade é que ninguém teve coragem de ir perguntar qualquer coisa a elas, nem oferecer ajuda pra carregar suas bolsas, nem saber dos seus nomes, nem mesmo a vendedora de biquínis lhes ofereceu dois deles para que ficassem mais confortáveis, nem um mergulho, um bronzeado, nada disso.

No entanto, é bem provável que fossem, elas também, principalmente pelo sotaque, assim como os meus amigos de férias, duas paulistanas; e de fato, durante grande parte do percurso, elas não pararam de falar um minuto, puxando o R e mudando de assunto com a velocidade de um controle remoto, sendo a maioria da conversa pura frivolidade, até onde foi possível acompanhar: a prova do líder do Big Brother Brasil, o último clipe da Mallu Magalhães, os filmes indicados ao Oscar, o próximo SP Fashion Week, o segredo de Fina Estampa e o calor, ai, o calor.

– Alguém, por favor, liga o ar-condicionado! – foi a última frase que ouvi de uma delas, sem que ninguém soubesse me dizer se aquilo era uma ordem, uma espécie de loucura ou apenas um gracejo.

Segunda-feira, Janeiro 23

Não existe amor no BBB

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





As telenovelas nos ensinaram pelo menos uma coisa: não existe uma fronteira muito definida que separa a ficção da realidade. O que houve de senhoras dando chute na canela de vilão da novela das oito, em quarenta anos de telenovela, não está no gibi. Uma vizinha da minha avó também costumava se referir a atores globais apenas pelo primeiro nome, ou às vezes mesmo através de apelidos criados por ela própria, criando um clima saudável de intimidade entre eles, mas causando algum mal entendido quando falava do Victor Fasano, por exemplo, pois eu sempre achava que ela estava se referindo a mim.

– O Victor é mesmo lindo, né?

– Mas que Victor, mulher?

– Ah, o Victor Fasano...

Por sua vez, a fórmula do Big Brother Brasil não deixa de ser outro passo em direção à falta de entendimento entre participantes e espectadores, dentre eles a vizinha da minha avó. A rigor, sabemos muito pouco ou nada sobre a medida de simulação que motiva cada ato (a princípio, verdadeiro) dos participantes da casa. Uma das respostas de Daniel sobre o suposto estupro não deixa de ser curiosa, sendo a resposta verdade ou mentira: o rapaz teria simulado sexo com Monique para se tornar mais popular. É como acontece na fantasia dos romances, lugar de onde surgem as telenovelas, pelo menos desde Don Juan; personagem que, aliás, segundo reza a lenda, também teria praticado estupro em uma jovem moça de família nobre.

Uma das principais controvérsias sobre a relação entre literatura e direito civil no século XIX é se a ficção, mesmo ela, estava acima da lei. Em francês, aliás, a palavra “nouvelle” significa ao mesmo tempo novela (ficção) e novidade ou notícia (realidade). O escritor francês Gustave Flaubert, por exemplo, foi aos tribunais por conta de seu romance Madame Bovary, apenas porque sua personagem, Emma Bovary, deu uns tantos chifres no marido. Um chifre nos dias de hoje não faz nem cócegas na ordem do nosso imaginário, mas a confusão não mudou tanto assim. Quando Boni diz que o principal problema do BBB é o texto – ou seja, a falta de interesse em tudo que é dito pelos participantes – é como se ele estivesse tratando o BBB como uma telenovela.

Em edições passadas do programa, alguém disse também que chega um momento dentro da casa em que o participante esquece que está sendo observado; ou seja, esquece que o BBB é um jogo, como se gosta de dizer. Em outras palavras, se a telenovela é uma ficção construída segundo a perspectiva da verdade, então o reality show – fórmula em si mesma paradoxal, pois show e realidade não são compatíveis – é uma realidade vista e vivida através do puro espetáculo. Outra curiosidade é que o resumo diário do programa é transmitido logo após a última telenovela do dia, assim como as chamadas para notícias nas capas de sites aparecem todas misturadas: “Álvaro revela para Tereza Cristina que sabe tudo sobre o segredo dela.”

Sempre considerei a fórmula do BBB interessante, embora agora já esteja bem desgastada – não é em vão que, embora o programa já esteja em sua décima segunda edição, a audiência não para de cair. Seja como for, parece bem divertida a idéia de colocar várias pessoas diferentes no mesmo lugar e observar como elas se comportam na medida em que são obrigadas a conviver, desde que elas queiram. No entanto, por mais que possa parecer, o BBB não é uma telenovela interativa. Aliás, talvez a única diferença entre o reality show e a telenovela é que, afinal de contas, o reality show não é uma telenovela. Enfim, que não haja amor no BBB, como disseram na semana passada, nem é algo tão evidente assim.

Segunda-feira, Janeiro 16

Carta de uma leitora

Bom dia Victor,

Me perdoe a sinceridade mas achei lamentável a sua publicação na coluna Contexto no DC do dia 16.01 sobre o texto escrito pelo morador de Jurerê.
Não sei de onde você é e nem onde mora mas se morasse em um local como se tornou Jurerê, deveria dar razão às críticas feitas no depoimento do Sr. Rica. Florianópolis se tornou, de um modo geral, na ilha das ilusões, onde todos acham que é um paraíso e que vindo morar aqui terão qualidade de vida.
Isso é um absurdo se levarmos em consideração vários fatores como mobilidade, planejamento, segurança, custo de vida, entre outros. E infelizmente, durante a temporada, todos esses pontos críticos pioram ao extremo e ainda temos que nos deparar com um povinho que acham que só por que conseguem passar uns dias em Jurerê Internacional são pessoas ricas e que podem fazer tudo o que querem sem ter o mínimo de bom senso e respeito pelos outros. Essa gente, na minha opinião, é pobre, muito pobre, de espírito e tenho pena de pensar que o nosso mundo está cada vez mais cheio delas. E os problemas que você considera que são apenas problemas do bairro "Sr. Rica", são problemas frequentes da nossa sociedade atualmente.

Att,

D.

* *

Olá, D:
não penso diferente de Rica Ribas no que se refere aos problemas de Jurerê Internacional, mas penso diferente no que se refere às causas; ou seja, quem construiu o inferno de Jurerê - que é na verdade o inferno de Florianópolis com alguns anos de atraso - foram as próprias pessoas que vivem na nossa cidade: das últimas prefeituras à mídia e aos moradores, sem exceção. De resto, quando se diz falta de espírito, infelizmente está se falando é de falta de dinheiro. No nosso país, os pobres levam a culpa de tudo.
Um abraço,
Victor.

Rica e o novo rico

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





De fato, nem tudo é uma delícia em Jurerê Internacional. Pelo menos é o que indicam as mais recentes estimativas.

Semana passada circulou pela internet, após ser publicada no blog do colunista Cacau Menezes, uma carta assinada por um morador de um bairro que agora é conhecido também como a segunda casa de Michel Teló; bairro que continua sendo, apesar disso tudo, “o destino mais desejado do litoral brasileiro”. Eu aprendi que o desejo das pessoas é algo que a gente não deve discutir, mas a carta de Rica Ribas – é assim que o morador de Jurerê Internacional assina, sendo Rica provavelmente uma abreviação de Ricardo, o que não deixa de ser sintomático – é um documento que merece ser lido.

A carta tem certo valor por uma série de motivos, inclusive por alguns motivos que o próprio Rica (vou chamá-lo assim também) nem desconfia. Por um lado, Rica esboça um interessante retrato dos turistas que passaram a freqüentar a praia, como um “casalzinho de Erechim” e “bombadões com correntes de prata”, enfatizando que nunca viu rico de verdade usar correntes assim, nem de ouro aliás; por outro, a carta é também um testemunho sobre o que um morador autêntico de Jurerê Internacional – Rica vive lá há mais de cinco anos – pensa sobre a vida.

A carta circulou amplamente pela internet porque Rica descreve com conhecimento de causa algumas barbaridades que acontecem no seu bairro e que, por motivos óbvios, acabam não sendo noticiadas: bêbados cantando “Ai, se eu te pego!” às seis horas da manhã, muitos acidentes de automóvel, gente pelada dormindo na sua garagem, enfim, uma verdadeira algazarra; e assim Rica chega à conclusão de que “99% da população de turistas de Jurerê é composta de IDIOTAS”.

Chega um momento, no entanto, em que a carta de Rica torna-se um pouco confusa. Em resumo, Rica parece sugerir a controvertida tese de que o problema do turismo em Jurerê Internacional, afinal, é a falta de ricos. Os 99% de idiotas da contagem de Rica são “os paulistas que economizam o ano inteiro para alugar uma casa dividida em 20 pessoas”, “gente que considera Michel Teló o máximo”, “bandidos que usam camisa de jogador de pólo cheia de bordado” e também o já citado “casalzinho de Erechim”, que pelo diminutivo me pareceu inofensivo.


Confesso que, nesse momento, tive curiosidade de saber quem faz parte da parcela de 1% imaginada por Rica e principalmente quais são as músicas que tocam no seu iPod, mas até onde sei as festas de Jurerê Internacional nunca foram freqüentadas por pós-graduandos em Harvard e muito menos por pobres, e sim por novos ricos, sejam eles turistas ou mesmo moradores, os vizinhos de Rica, no caso. Afinal, pobre não tem condições de comprar “camarote$, pul$eirinha$, champã$ e ferrari$”, nem se economizarem a vida inteira. E carro de pobre, quando muito, anda no máximo até 120km/h.

Com uns vinte anos de atraso, Rica também descobriu que o turismo, afinal, não vale o retorno financeiro que oferece pra cidade, ou pra “meia dúzia de empresários apenas”, pessoas ricas elas também. Por que Rica descobriu isso só agora? Verdade também que policial não costuma bater na porta de apartamentos localizados na linha do mar e nem de parar ferrari$ para realizar testes do bafômetro, como Rica gostaria que acontecesse. O que nos faz concluir, dentre outras coisas, que as perspectivas para Rica não são das melhores.


Enfim, acredito que Rica tem todo o direito de reclamar do que julga serem os problemas de seu bairro; afinal ninguém gosta de acordar com um cara pelado na própria garagem, salvo engano. No entanto, acredito que faltou para Rica também uma autocrítica.

Segunda-feira, Janeiro 9

Antropologia de boteco

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





Há certas lições nessa vida que só se aprende com a prática; se comportar em boteco é uma delas. Depois de uma pesquisa de duas semanas pelos botecos mineiros, onde estou passando férias – digo, estou passando férias não exatamente nos botecos, mas na cidade –, além da experiência já adquirida nos anos anteriores, sinto-me com material suficiente para uma breve explanação sobre o assunto. A primeira lição que os mineiros me ensinaram sobre botecos, aliás, e isso qualquer pessoa é capaz de aprender com algumas horas apenas de prática, é que com os mineiros não se brinca. Em resumo: cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, mas o mesmo não se pode dizer sobre a cachaça.

Seja como for, cheguei à conclusão de que a pior coisa de boteco – e não importa o paradoxo – é justamente o bêbado. Por exemplo, quando você chega atrasado no boteco e já tem dois bêbados esperando na mesa. Um bêbado só é legal em três situações: quando está bem longe de você, pois assim você não se compromete; quando é alguém famoso, por motivos óbvios; ou quando é você próprio. O pior bêbado, por outro lado, é aquele com quem você cultiva plena intimidade: amigos e principalmente familiares. Intimidade em boteco, aliás, de maneira geral, não é uma coisa muito boa.

Ficar bêbado, em todo caso, é bem diferente de ficar altinho ou alegrinho; meu pai chama esse estado de tonturinha. É aquele estado em que você começa a dizer umas loucurinhas com distinção e elegância. Você vai chamar o garçom de “meu nobre cavalheiro” e quando pedir uma nova cerveja dirá a ele: “só se não fizer falta...”, como sempre faz um amigo meu. Aliás, esse meu amigo, mesmo sem pedir água sem gás, dificilmente demonstra que está bêbado: ele fica até o fim da noite – momento em que os garçons começam a empilhar as cadeiras sobre as mesas, com exceção da nossa, talvez o espetáculo mais bonito do planeta – com a mesma cara das nove e meia, embora não com o mesmo coração.

O sujeito que possui boa experiência em boteco, de fato, consegue permanecer altinho por mais tempo, como se fosse um equilibrista sobre a corda bamba da razão. Há inúmeros signos que acusam o fim do estado altinho e anunciam o começo de uma tragédia: alguns signos são indícios, outros são certezas. Derrubar copo, por exemplo, é o primeiro indício. Na hora, pra não haver problema, os amigos vão dizer que foi só um acidente, mas não é bem assim. O discurso sentimental também, como já se sabe, aparece logo depois. E se o sujeito derruba o copo e ainda diz que te considera, pode esperar que ele deve cantar a sua namorada 15 minutos depois ou, no melhor dos casos, vai recitar pra mesa inteira uma canção do Roberto Carlos.

Mas há outra coisa ainda pior nos botecos: sentar em lugar ruim. Isso serve tanto pra sua posição na mesa quanto pra posição da sua mesa em relação ao bar. Se você senta na ponta, em uma mesa de canto e ainda cai um bêbado do teu lado, bem, o nome disso é inferno; acontece com pessoas que foram bêbados muito chatos em vidas passadas. Nesse caso, o bêbado – o bêbado da vida presente – vai falar alto com você. Não vai ouvi-lo. Pra resumir, eu diria que o bêbado vai querer emitir opiniões altamente discutíveis com a autoridade de um mestre de cerimônia. Bêbados não têm modéstia. Além de mais bonitos e mais fortes, pensam também que são três vezes mais inteligentes do que realmente são. Mas nunca são três vezes mais ricos. A hora de pagar a conta é o único momento em que o bêbado tem alguma lucidez

Segunda-feira, Janeiro 2

Umas previsões incríveis

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense







Segundo previsões estapafúrdias, mas muito verdadeiras, 2012 promete ser um ano de acontecimentos espetaculares para Florianópolis. De certeza há apenas três feriados na sexta-feira e a saída de Dário Berger da prefeitura – ou seja, começamos com duas notícias muito boas realmente – mas há também conjecturas das quais a nossa triste e deselegante filosofia, ou pelo menos a minha, nem ousa duvidar. O ano termina, segundo nos explica o calendário maia, como todo mundo já sabe, com o fim do mundo – e está anunciado também que o fim do mundo (isso pouca gente sabe) começa exatamente pelo sul do país, no próximo 31 de dezembro, após a chegada dos primeiros turistas na ilha – mas até lá muita coisa deve acontecer. Vamos a elas.

PRIMEIRA PREVISÃO: Com a realização de um trio com Thiaguinho e Ronaldinho em show do grupo de pagode Barulhinho Maneiro, encontro que a ilha terá a honra de sediar, Neymar descobre que seu verdadeiro talento não é o futebol, e sim a música, e então o jogador assina contrato com o Avaí por duas temporadas.

SEGUNDA PREVISÃO: Após a realização dos filmes “As Procuradas” e “A Antropóloga”, o cineasta Zeca Pires inicia as filmagens de seu terceiro longa-metragem, que se chamará “O Baile Todo”, sucesso de público e crítica, fechando assim uma trilogia de dez anos.

TERCEIRA PREVISÃO: Com o crescimento populacional, a construção de dois novos shoppings, três grandes hotéis e uns duzentos e cinquenta prédios de vinte e cinco andares, seguido da popularização do programa “Escort à Beira Mar”, um trocadilho aliás muito simpático, relacionado também ao crescimento da economia local, um reflexo natural do crescimento da economia nacional, que deve proporcionar ao cidadão mané a compra de carros maiores, mais bonitos e equipados, enfim, em uns três meses uma parte da ilha afunda.

QUARTA PREVISÃO: A equipe de administração e gestão do Centro Integrado de Cultura (CIC) anuncia licitação pública para a realização de novas reformas, que devem reiniciar definitivamente só em 2013, ou seja, alguns meses após o fim do mundo.

QUINTA PREVISÃO: Algumas semanas antes do fim do mundo, por outro lado, o cantor Ivan Lins faz o show de abertura da Semana Ousada de Artes, no campus da UFSC.

SEXTA PREVISÃO: Em meados de agosto, Neymar descobre que seu maior talento na verdade não é a música, e sim a política, e então resolve se candidatar para o cargo de prefeito da cidade; com o tema de campanha: “Neymar: vamos rir pra não chorar”, o ex-jogador vence as eleições já no primeiro turno, desbancando políticos experientes como Ângela Amin e César Souza Junior.

SÉTIMA PREVISÃO: Guga Kuerten, ao presenciar seu time na segunda divisão e o Neymar como prefeito de sua cidade, decide definitivamente se mudar pra Paris; e como Carlota Joaquina fez em mil oitocentos e alguma coisa, quando ao voltar pra Europa tirou os sapatos para que dessa terra “não levasse nem o pó”, segundo sua própria declaração, Guga também deixará sua prancha de surf na ilha e afirmará pelo twitter que dessa ilha “não levará nem o sal”.

OITAVA, e última, PREVISÃO: Rosette Rosa, minha tia, que apostou na Mega da Virada e se tornará podre de rica já nos primeiros dias de 2012, espera assistir a tudo isso de seu helicóptero e não pretende descer nem pra votar.

Segunda-feira, Dezembro 26

Mandingas e outras formas de justiça

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense




No final do ano a gente sempre faz umas mandingas pra vida melhorar, mas depois nada dá certo, e mesmo assim, no outro ano, a gente faz outra vez. É igual porre no meio de semana: quando a gente acorda em plena quarta-feira, com dor de cabeça e um monte de coisa pra resolver, percebe que aquilo não resolve a vida de ninguém, mas na outra semana está todo mundo na mesa do bar outra vez. Além do amigo secreto, assunto já desenvolvido em uma reflexão anterior – que é justamente a praga do começo do mês – as mandingas são as pragas do fim de dezembro.

Os principais objetivos das mandingas são arrumar namorado, ganhar dinheiro, ter saúde e paz, tudo ao mesmo tempo, o que não deixa de ser um pequeno resumo sobre o que a humanidade efetivamente deseja da vida e até mesmo, por outro lado, não deixa de ser um paradoxo. Ninguém pede pra ter bom gosto musical, por exemplo. Depois, se a pessoa quer ter paz, então é melhor não arrumar namorado; se quer ter saúde, é mais aconselhável continuar a vida como classe média, pois não há nada menos saudável do que o dinheiro. Enfim, não dá pra querer tudo de uma vez. Por outro lado, fica difícil também desejar um 2012 cheio de paz se a pessoa não tem dinheiro. O jeito mais rápido de conseguir paz na vida é comprando um apartamento maior.

Tenho uma amiga muito mística, aliás, que não acredita em mandinga, acha que mandinga é uma palavra antiquada, e fala em “rituais de harmonização”. Ela, que se define como “espiritualista” – essa coisa que ninguém sabe dizer muito bem o que é – acredita na “energia e nos bons fluidos das pedras”, mas acha uma tremenda vulgaridade usar calcinha vermelha pra arrumar namorado. E a minha tia Rosette Rosa, que sempre foi uma mulher cética e sem paciência, diz que não acredita em simpatias, só em antipatias, assim mesmo, no plural. Em outras palavras, trata-se de um assunto polêmico.

A verdade é que se mandinga desse certo, se todo pedido fosse logo realizado, então o Axé não teria nascido na Bahia de todos os santos, e sim na Suíça, lugar onde se faz pouca mandinga. Depois, tem umas mandingas que eu acho simplórias demais. Por exemplo, tomar banho de mar na hora da virada pra limpar a alma. Se for pra fazer mandinga mesmo, tem que fazer um troço diferente, tipo beber um litro de chá com cogumelos roxos preparado com água do Mar Báltico e temperado com gengibre indiano, em um gole só; pois banho de mar, salvo engano, a gente já toma toda semana. Também tem aquelas mandingas em que o sujeito tem que dar uns pulinhos. Não é legal. Ou vestir calcinhas e cuecas novas. Ora, isso é recomendável que se faça o ano inteiro. Aliás, se a pessoa não compra umas calcinhas legais já em fevereiro, está explicado porque no fim do ano fica querendo fazer mandinga pra arrumar namorado.

Outra coisa que eu acho errado nas mandingas é que pra não perder dinheiro você já tem que começar perdendo: esconder moedas debaixo do tapete e deixar lá o ano inteiro, enfiar notas de dez reais na sola do tênis – depois fica bêbado, esquece e entra no mar de roupa – enfim, essas coisas. Ou comprar camisa amarela pra depois ficar esquecida no guarda-roupa durante o ano. Francamente, eu acho que a melhor maneira de atrair dinheiro para 2012 é fazer hora extra no dia 31. Só em não sair pra festa de Reveillon, além de adquirir paz, você também já economiza uma boa grana. Ou então se candidatar para ser prefeito de Florianópolis no ano que vem. Mandinga boa, essa. Não tem erro. E depois tem aquele dito sábio com o qual eu não teimo em discordar: quanto mais mandinga, mais assombração.

Segunda-feira, Dezembro 19

Carlos Correria e o Exu

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense



Os taxistas, como todo mundo sabe, fazem de tudo um pouco. Além de transportar pessoas de um lugar a outro, os taxistas também, eventualmente, realizam as atividades de informantes secretos, investigadores de adultério, psicanalistas amadores, conselheiros sentimentais; e ainda outras coisas que, francamente, é melhor nem dizer aqui. Quem trabalha há mais de 20 anos na profissão, como é o caso do nosso taxista preferido, que atende pela alcunha de Carlos Correria, já está muito acostumado com tudo isso. No entanto, na semana passada, houve uma solicitação que pegou nosso amigo das horas noturnas de surpresa, a saber: evangelizador de Exu.

– Por essa eu não esperava! – suspira Correria, atento ao volante, enquanto faz um mistério antes de iniciar a narrativa dos fatos.

Carlos Correria foi atender a chamada de uma solteirona às oito da noite; como de costume, chegou cinco minutos antes, encostou o carro na frente da casa, deu duas buzinadas de leve – daquelas que se dá pra uma velhinha atravessar a rua, por exemplo – e ficou esperando. Nada da mulher aparecer. Nosso amigo então saiu do carro, acendeu um cigarro, pensou nas mulheres que amou, deu mais cinco minutos, olhou pra um lado, outro; e nada. Quando já estava imaginando que era trote, a mulher lhe chama da janela. Pede pro nosso amigo entrar. Estava mais branca do que neve na Suíça. Precisava de ajuda.

Essa coisa de ajudar os outros em horário de trabalho já deixa Carlos Correria meio contrariado – trata-se de um sujeito que tem bom coração só quando está em seu dia de folga – mas ele foi. Depois, passou por sua imaginação uma série de ajudas que não lhe dariam trabalho algum; aliás, pelo contrário. Bateu a porta do carro, apagou o cigarro, perguntou se não tinha cachorro, como de praxe, e entrou. Quando entrou na casa da solteirona, Carlos Correria deu de cara com uma segunda mulher estirada no sofá: era o Exu. Com três cigarros na mão direita, um copo de cachaça na esquerda, a voz grossa e o cabelo mais desgrenhado do que pinheiro de Natal, o Exu já lhe recebeu dizendo umas verdades:

– Volta pro teu lugar, misifi; aqui não tem nada que te pertence!

Carlos Correria aceitou a sugestão do Exu e, depois de quatro segundos pensando se tentava estabelecer um diálogo amigável, deu meia volta; honrando aliás seu sobrenome. Nesse caso, não deu tempo nem de deixar o seu cartão: “Carlos Correria, a seu dispor”. Enquanto a outra mulher implorava que fizesse alguma coisa, explicando que isso às vezes acontecia com a sua amiga, Carlos argumentava que não era muito entendido do assunto. Foi quando, já no portão da casa do Exu, passou um velho conhecido do nosso amigo do outro lado da calçada: era um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que vivia na rua de baixo. Carlos Correria sempre levava o pastor nas missas. Não deu outra.

– Espera um minuto que eu já vou dar um jeito nesse Exu! – disse o herói da nossa história.

Nessa hora, Correria já estava quase me deixando no destino da corrida e teve então que resumir a história. O pastor voltou com uma bíblia na mão e uma idéia fixa na cabeça; no caso, na cabeça do Exu. Diante do bicho, o pastor dizia que aquele corpo não lhe pertencia enquanto dava umas bordoadas com a bíblia na cabeça da mulher. Carlos Correria acompanhava tudo de longe. E o Exu, por sua vez, não teve escolha: foi ciscar em outro terreiro. No fim de tudo, depois de uns quarenta minutos, Carlos Correria ainda levou o Exu em casa.

– Pra Exu é bandeira dois! – disse nosso amigo pra mulher que não achou muita graça.

Segunda-feira, Dezembro 12

Um milhão de amigos secretos

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense





Até esta data, dia 8 de dezembro, consegui fugir de todas as celebrações de amigo secreto para as quais fui convidado. Duas coisas que eu fujo na vida, aliás: amigo secreto e sarau literário. Francamente, acho que amigo secreto é um negócio que já está errado desde o nome; geralmente os inimigos é que são secretos. Chega dezembro e todo mundo já fica querendo organizar um amigo secreto no final de semana. E o pior é que consegue. Seja na escola, na família ou até mesmo na empresa, lugar em que ninguém nem vai com a cara de ninguém, haverá sempre alguém te esperando com um embrulho na mão e um sorriso no rosto.

Às vezes eu acho que dezembro é o mês em que a humanidade, de maneira geral, desenvolveu as suas piores ideias. Por exemplo, fazer uma camisa azul para o goleiro do Figueirense, como foi divulgado na semana passada. Ou então levar o filho, três sobrinhos e mais dois amiguinhos do colégio pra tirar uma série de fotos com o Papai Noel no Shopping Iguatemi, como fez a Rosette Rosa, minha tia. Que ideia de jerico é essa? Deve ser o cansaço de fim de ano misturado com a falta do que fazer. Dezembro, como disse uma amiga, é o inferno astral do menino Jesus. Em boa coisa não pode dar.

O processo da celebração do amigo secreto pode ser dividido em duas partes. Na primeira, você pega o nome de seu amigo na sacolinha e não pode dizer pra ninguém, mas sempre acaba dizendo; na segunda, como se sabe, é quando chega a hora da revelação. Nesse momento, você tem que descrever as características físicas e/ou psicológicas de seu amigo, que vai deixando de ser secreto, enquanto as pessoas tentam adivinhar. Uma coisa legal dessa parte é que sempre tem alguém indiscreto – na minha família pelo menos é assim – que vai dizer umas coisas, conscientemente ou não, que o outro não vai gostar. O discurso costuma começar assim: “Quando eu conheci o meu amigo, não fui muito com a cara dele...”. Daí começa a lavação de roupa suja.

Outra coisa é que nos amigos secretos todo mundo sempre acha que deu um presente muito legal e ganhou um presente horrível, equação que no fim das contas não deixa de ser um paradoxo interessante. Se todo mundo dá um presente bom, como alguém pode receber um presente ruim? Pelo que tenho observado, os presentes mais recorrentes são: 1) camisa gola polo preta; 2) sandália havaiana; 3) vale CD das Livrarias Catarinense; 4) anjinho bibelô do R$1,99; 5) meia soquete; e 6) Cacau Show – que, como se sabe, não é um best-seller do Cacau Menezes, e sim um chocolate melhorzinho. Fui falar tudo isso pro meu primo, justificando minha decisão de não participar do amigo secreto da família nesse ano, e ele veio com o papo de que “amigo secreto com a família é legal mais pra fazer um guéri guéri com a vó”.

Meu primo, que pediu pra não ser identificado, participa de todos os amigos secretos que pode. E organiza alguns deles, inclusive. Só nesse fim de ano, segundo me disse, foram seis participações. Perguntei como ele pode ter criatividade e principalmente paciência pra comprar tanto presente e ele disse que desenvolveu o método “Passa ou Repassa”. No que consiste o método do meu primo? Consiste em presentear o amigo secreto de amanhã com o presente que ganhou hoje. “O melhor do presente repassado”, diz ele, “é a sensação que a gente sente quando dá”. De algum modo, com seu método, acredito que meu primo captou a própria essência do amigo secreto.

Segunda-feira, Dezembro 5

Rosette Rosa palpita

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense



Rosette Rosa, minha tia que é fanática por futebol, como eu já disse em outras oportunidades, passou a semana excitada devido à última rodada do Brasileirão – que ela chama de Dilmão 2011 – e, por isso, um dia antes de começar as decisões, ela me telefonou de seu Infinity-Pré pra oferecer palpites sobre qual equipe será a campeã nacional, qual fica no g-5, zona conhecida também como a boquinha da garrafa da tabela, e qual equipe finalmente abraça o Capeta, além daquelas que já lhe são íntimas.

Rosette sempre foi boa de palpite, dentre outras coisas – quando eu ainda era um menino, por exemplo, ela dizia que meu destino seria vestir a camisa 8 do Avaí, coisa que ela errou por muito pouco – mas dessa vez, em uma rodada com tantos clássicos, decisões e vice-versa, a única certeza da minha tia é que o Avaí acaba na lanterna, embora o Avaí seja o seu time de coração.

– Mas como eu posso acreditar em um time que tem Júnior Urso, Rafael Coelho e Mauro Ovelha? Isso não é um time de futebol, é um jardim zoológico! – diz minha tia, meio indignada.

Mas quando a conversa não gira em torno do Avaí, Rosette sabe analisar o futebol com a frieza e a parcimônia que o assunto requer. O futebol, segundo ela, contradizendo o adágio popular, não é uma caixinha de surpresas, e sim de tristezas; quando muito, uma caixinha de cervejas. O que ela quer dizer com isso? Quer dizer que, apesar de a gente insistir em acreditar no contrário, sempre dá o óbvio. Sim, além de entender de futebol, minha tia também “bebe como um homem”, segundo suas próprias palavras. Nas festas de família, por exemplo, já teve muito primo meu que não fazia mais o 4 enquanto ela ainda estava fazendo o 8.

Por exemplo, o Vasco – time para o qual eu torço, aliás – será vice outra vez. E contra o Flamengo. É sina. E mesmo vencendo. Mesmo que seja também o grande jogo do Dilmão 2011. Isso porque o Corinthians, como aconteceu nos últimos 38 jogos, de acordo com o palpite e a análise de Rosette, vai vencer com um gol de cabeça de Liedson em posição duvidosa após o cruzamento de algum jogador que entrará aos 25 do segundo tempo. O Flamengo, por sua vez, mesmo perdendo, se classifica para a Taça Libertadores. Em outras palavras, explica a Rosette, o Vasco é freguês do Flamengo até quando ganha.

O Figueirense, segundo a minha tia, é outro que vai dançar, ao lado do Internacional. Depois de um belo 0 a 0 contra o Avaí na Ressacada, resultado que a torcida avaiana irá comemorar como se tivesse em um show do Luan Santana, o Furacão do Estreito deve perder a vaga da Libertadores para o Coritiba, que por sua vez não tomará conhecimento do moribundo Atlético-PR e vencerá fácil por 3 tentos a 0. Inclusive a própria Rosette, que nas últimas rodadas tem se dedicado exclusivamente a secar o rival, sempre com êxito, já havia comprado seu ingresso. Em Porto Alegre, em um jogo que minha tia tinha muitas dúvidas, a torcida é para que o treinador do Grêmio, conhecido também como Sex Hot, se despeça do Grêmio com uma vitória.

– Adoro homens com bigodes! – confessa Rosette.

E na zona de meretrício da tabela, finalmente, os jogadores do Bahia vão jogar contra o Ceará como se estivessem deitados em uma rede tomando água de coco na praia do Bonfim; enquanto do outro lado da montanha, em Minas Gerais, Atlético-MG e Cruzeiro fazem uma espécie de reedição da Segunda Guerra Mundial. O palpite da minha tia é que Ceará ganha e se livra da série B; Cruzeiro não ganha e cai. E vamos ver se Rosette Rosa entende mesmo de futebol.

Segunda-feira, Novembro 28

Umas verdades sobre o falso

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense




Com o tempo, passei a ter certa admiração pelas pessoas falsas. E digo isso com toda a franqueza que me resta. O sujeito falso, apesar da minha admiração, sofre uma espécie de estigma social; em detrimento da verdade, que tem como seu principal representante o sujeito sincero, a falsidade sempre foi encarada como erro e até mesmo como falta de lealdade. Desde a Grécia Antiga, no tempo em que ainda nem existia o Facebook, quando Platão expulsa o poeta da República por considerá-lo portador de um discurso sem autenticidade, a falsidade já é vista como um mal. No entanto, o poeta só deu um passeio nas redondezas, pra despistar o Platão, e depois voltou.

Seja como for, é a falsidade que nos mantêm seguros; mais do que as leis, a polícia e o Estado, é a falsidade que possibilita o bom convívio social e também as vernissages com vinho branco e canapé na abertura das exposições realizadas na Fundação Cultural Badesc, por exemplo – sem dúvida, as melhores vernissages da Capital. Vernissage, aliás – que em francês significa “passar verniz” – tem tudo a ver com falsidade. Se a gente imaginar que a vida é uma grande vernissage, o que convenhamos não é nenhum absurdo, então estamos feitos.

O sujeito sincero, quando quer iniciar seu longo discurso a alguém, sempre inicia com a seguinte fórmula, uma palavra de ordem ao mesmo tempo arrogante e ingênua: “Agora você vai escutar umas verdades”. Nada mais falso! É uma fórmula arrogante porque só um arrogante pode considerar que possui qualquer domínio sobre a verdade; e pelos mesmos motivos é também uma fórmula ingênua. O sujeito falso, por sua vez, não tem a pretensão de dizer verdade nenhuma a ninguém. Por isso, com muito mais modéstia, ele é só sorrisos e tapinha nas costas. E entre meia dúzia de verdades e um tapinha nas costas, fico com o tapinha nas costas. Afinal, como diz o ditado, uma verdade dói; um tapinha (nas costas) não dói.

É por isso que não há nada melhor do que ter um desafeto falso. As aparências enganam, mas não faz mal. O desafeto falso jamais vai te importunar – seja nas próprias vernissages, através de indiretas desnecessárias, ou em longos e-mails no dia seguinte – e nem te dizer coisas desagradáveis e negativas. Até arrisco pensar que ter um desafeto falso é melhor do que ter um amigo verdadeiro. Um desafeto falso fala bem de você pela frente e mal de você pelas costas, como se sabe; um amigo verdadeiro, por outro lado, fala bem de você pelas costas e mal pela frente. O que é melhor? Como diz um amigo meu – que aliás é meio falso também – quem dá sentença pela frente é juiz ou, no máximo, psicanalista.

Além das vantagens de conviver com uma pessoa falsa, há também as vantagens de ser uma delas; mas não vamos imaginar que é algo tão simples, que acontece da noite para o dia. Nesse caso, a falsidade deve ser um exercício diário, submetido a um sistema de práticas que irá possibilitar que você alcance um estado de perfeição, como acontece com as artes maciais, por exemplo. Ninguém nasce falso, salvo engano; é uma coisa que se aprende. De fato, a pessoa que exerce a falsidade, seja jogador de futebol, artista ou concorrente ao Big Brother – embora, verdade seja dita, os artistas sempre têm uma pequena vantagem sobre os outros – costuma alcançar maior sucesso em suas atividades. Pelo menos é o que eu tenho visto na televisão.

Segunda-feira, Novembro 21

Lula e as imagens

Por Victor da Rosa para Diário Catarinense




Após as polêmicas em torno do câncer de Lula, algumas das maiores revistas brasileiras de política, como a Época, a Carta Capital e a Veja, dedicaram suas principais reportagens ao assunto. Eu não li nenhuma delas, mas passei algum tempo analisando suas capas. Aliás, parado bem no meio da banca de revistas, eu sentia como se estivesse dentro da caverna de Platão: um mundo onde todas as imagens, e só elas, estão acessíveis. De fato, diferentes imagens de Lula aparecem nas capas. O tom das manchetes, por sua vez, varia entre e a neutralidade e a defesa do ex-presidente: “Lula, a doença e a estupidez”, “O SUS e o preconceito”, entre outros; mas são as imagens, e não as manchetes, que parecem nos dizer os maiores segredos.

Na capa da Carta Capital, Lula aparece olhando para o alto, de perfil, esperançoso e com os olhos um pouco marejados; na Época, ele olha para frente, destemido, determinado, embora com um sinistro fundo completamente escuro; na Veja, certamente a foto mais controversa, o ex-presidente olha para baixo, com uma das mãos diante da boca, tossindo, sem ânimo, enfim: trata-se de uma foto que, em todos os seus aspectos, acentuada pelas cores cinzentas da capa, enfatiza a falta de vida. Pouco importa, nesse caso, qual imagem corresponde melhor ao estado de vida de Lula; o que as diferentes fotos parecem revelar é que, na sociedade do espetáculo, as guerras são travadas, antes de tudo, através das imagens.

Toda a trajetória política de Lula, de fato, poderia ser dividida em dois momentos. No primeiro, Lula acredita que a política é uma guerra de discursos; depois, passa a entender que as imagens são fundamentais. Lula levou quinze anos – três eleições – para aprender o que, afinal, parece tão óbvio: um político deve ser uma espécie de marionete de si próprio. E nisso Lula é brilhante como só os grandes artistas souberam ser.

Portanto, não é aleatório que o pronunciamento de Lula após o início do tratamento do câncer, sua resposta a todas as polêmicas, aconteça justamente através de duas fotografias. Na última semana, como diversos jornais estamparam também em suas capas, Lula apareceu cortando o cabelo e a barba, se antecipando assim à queda decorrente da quimioterapia. São imagens bem eloqüentes, além de perfeitamente construídas – os planos, as cores, tudo nelas é devidamente calculado – apesar de sua aparente despretensão. Se Lula aparece com o rosto ainda sujo de creme de barbear, em uma das fotografias, é porque quer criar efeito justamente de espontaneidade.

Além do mais, há muita carga simbólica envolvida nelas. A barba, por exemplo, é um signo forte na imagem do ex-presidente, algo que vincula sua história ao tempo em que era sindicalista. Marisa, sua esposa, além de mostrar que Lula não está sozinho – de certo modo, ela quer representar a nós todos ali – também interpela as mulheres na medida em que aparece com o símbolo da campanha contra o câncer de mama em sua blusa. As duas fotografias nos dizem inclusive que Lula está acima da própria doença: é possível prever seus efeitos e se antecipar a ela. São imagens que transmitem força ao mesmo tempo em não abrem mão da delicadeza; se há algo de fragilidade nelas, há também confiança e sobriedade. Enfim, a divulgação dessas imagens, no interior de uma guerra de imagens, não deixa de ser uma estratégia política de quem sabe das coisas.

Segunda-feira, Novembro 14

As crônicas que não fiz

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense

Durante a semana, um cronista escreve muitas crônicas; todas na cabeça. Quando as pessoas descobrem que você escreve, por exemplo, elas também passam a te sugerir uns temas: escreva sobre isso, sobre aquilo. Todas estas crônicas, que quase ganham existência, acabam não existindo por diversos motivos. De modo geral, e esse é o principal motivo, nenhuma delas acaba prestando. Mas não é o único. Às vezes você simplesmente não está a fim de escrever sobre determinado assunto; às vezes é um assunto bom, mas você não domina; em outras, a coisa pode se tornar muito arriscada. No meio de tantas crônicas possíveis – há semanas em que elas chegam a 10, 15 – você precisa escolher a crônica certa. É como procurar agulha no palheiro: nem sempre você encontra.

Como nesta semana eu ainda não consegui encontrar a crônica certa, e levando em consideração que já são quase quatro da tarde, horário em que meu editor se encontra na frente do seu computador esperando um e-mail que eu já devia ter enviado duas horas atrás, resolvi compartilhar algumas crônicas que não fiz. Algumas delas já vêm de longa data; outras surgiram agora há pouco, mas não vingaram. Enfim.

1. Zezé di Camargo e Luciano... Martins. Essa seria uma crônica de teor crítico sobre o estado da “arte” na era do espetáculo. O trocadilho com o nome do cantor Luciano e do publicitário Luciano Martins, que a imprensa catarinense insiste em chamar de artista, me pareceu excelente, mas o tom da crônica certamente ficaria pedante e pretensioso. Além do mais, falar sobre arte sempre cansa o leitor.

2. Onze do Onze de Dois Mil e Onze. É claro que eu fiquei muito tentado a escrever qualquer coisa sobre essa data cabalística, pois sempre dá uma boa repercussão escrever sobre os assuntos mais comentados da semana, poderia ser qualquer coisa mesmo, mas não me veio nada.

3. Rolé no Rio. Sempre gostei desse título, eu me senti um verdadeiro poeta quando o título me ocorreu, mas depois encontrei 322 mil ocorrências da expressão no Google. Mesmo assim anotei a expressão na minha caderneta e fiquei aguardando aparecer uma viagem ao Rio de Janeiro, momento em que eu poderia escrever uma crônica legal sobre a Cidade Maravilhosa, mas a viagem também nunca apareceu. O que eu gosto nesse título – uma amiga me chamou a atenção sobre isso – é que a expressão “Rolé” é de origem paulista.

4. Árvore Genealógica da Família Nem. Crônicas sobre tabus morais e questões ilegais da sociedade contemporânea sempre são complicadas. Foi pensando nisso que logo abandonei essa crônica investigativa, em que eu iria pesquisar o grau de parentesco do traficante carioca com o excelente atacante do Figueirense – também carioca, diga-se de passagem – que se chama justamente Wellington Nem.

5. Mais um chato no chat. Levando adiante minhas pesquisas de caráter antropológico sobre o funcionamento da psicologia humana nas redes sociais, essa crônica teria como principal objetivo investigar as formas de comportamento do troll, gíria na internet que designa uma pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão, provocar e enfurecer as pessoas envolvidas nelas, etc – ou seja, são os chatos – mas também acabei desistindo deste assunto.

6. Vídeo Show de Horrores. Sempre que almoço em restaurante com televisão, acabo assistindo ao Vídeo Show, na minha opinião o programa mais estúpido da TV brasileira. Sempre quis escrever uma crônica falando mal do programa, mas também não quero parecer uma pessoa ressentida.

Segunda-feira, Novembro 7

A quarta ponte e mais maravilhas

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Por Victor da Rosa para DC



A quarta ponte nem está pronta ainda e já foi eleita pela Comissão de Assuntos Inconvenientes como a sétima maravilha de Florianópolis. Aliás, digo a sétima maravilha por falta de tempo e principalmente por falta de criatividade, pois certamente há mais que sete; talvez haja umas 15 ou mesmo umas 20 maravilhas nesse nosso pedacinho de terra que já foi perdido no mar, como disse Zininho uns anos atrás, mas não é mais. A quarta ponte, provavelmente a única ponte do mundo que liga um aterro a outro, vem coroar uma série incrível de grandes e pequenos monumentos destinados a nos lembrar do quanto somos, digamos assim, maravilhosos.

PRIMEIRA MARAVILHA: Memorial ao Miramar. Realizado para lembrar o antigo bar e trapiche Miramar, que funcionava no tempo em que Florianópolis ainda não se chamava Nossa Senhora dos Aterros – segundo nos lembra o presidente honorário da nossa Comissão, Fábio Bruggemann – o monumento parece mais a cara de quem fez do que outra coisa.

SEGUNDA MARAVILHA: Beira-mar continental. Criada para desafogar o trânsito do bairro Estreito, a curiosa Beira-mar continental não pôde atravessar a Marinha e por isso terá que acabar em uma sinaleira que demora cinco minutos pra abrir, ao lado de um estádio de futebol com capacidade para 20 mil pessoas. Desta maneira, o trânsito no começo do bairro será deslocado para o fim do bairro.

TERCEIRA MARAVILHA: Shopping Iguatemi. Um dos mais ousados empreendimentos realizados nos últimos anos, o mencionado Shopping se destaca, no meio de tantas maravilhas, por não ter sido levantado sobre um aterro. A solução da construtora foi mais rápida, prática e eficaz: levanta a bagaça direto em cima do mangue. Após pagar indenização aos jacarés que viviam na região, segundo uma negociação cheia de mal-entendidos, o Iguatemi foi construído, por motivos que desconheço, em apenas duas semanas.

QUARTA MARAVILHA: Elevado do Trevo da Seta. Mais recente empreendimento da nossa Prefeitura, conhecido carinhosamente no sul da Ilha como “Só os avaianos são felizes”, o elevado que liga os bairros Costeira do Pirajubaé e Rio Tavares foi construído especialmente para homenagear a queda do Leão da Ilha para a segunda divisão.

QUINTA MARAVILHA: Terminal Integrado do Saco dos Limões. Construído pela prefeitura anterior, que promete se eleger outra vez e realizar novos terminais para a população carente, o terminal de ônibus do Saco dos Limões, além de ter custado quase R$ 2 milhões para os cofres públicos, é o único lugar do mundo onde ninguém jamais nunca esteve. Na verdade, o que eu disse é mentira. De uns anos pra cá, o Terminal passou a ser utilizado por um grupo de capoeiristas e por uma turma de peladeiros que organiza partidas de futebol com trave improvisada.

SEXTA, e última, MARAVILHA: Boitatá Incandescente. Pouco conhecido da população em geral, a escultura de 15 metros de altura e quase duas toneladas, que também parece a cara de quem fez, se encontra no campus da UFSC, bem na frente do lago. Inspirada no universo bruxólico e com uma câmera anexada na cabeça, o boitatá tinha como principal função vigiar e punir o casal de patos que morava no lago, mas parece que os patos passaram no vestibular pra Letras e agora estão fazendo sucesso como a mais nova dupla de sertanejo universitário

Segunda-feira, Outubro 31

Manual prático do riso

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Por Victor da Rosa para DC

Riso na internet (sem trocadilho) é uma coisa engraçada mesmo. Desde que os chats se tornaram populares, há mais de 10 anos, no tempo ainda do banco Bamerindus, a representação do riso no mundo virtual já aparecia como uma manifestação cheia de complexidade, engano e graça. De lá pra cá, como se sabe, a coisa só melhorou. Ri-se mais e com muito mais recursos; talvez com mais vontade. Deve ser um sinal, não sei, de que viver anda cada vez mais engraçado.

Surpreende, por exemplo, que as pessoas usem maneiras tão variadas para representar o riso, essa coisa tão simples e ao mesmo tempo tão misteriosa. Você pode rir alto, baixo, gargalhar ou até fingir que riu quando, na verdade, não achou nenhuma graça; tem também o riso maroto, irônico, o riso displicente ou somente o sorriso, que é quando as pessoas quase nem mostram os dentes. É como na vida, aliás. Tem gente que, em 30 minutos de conversa em um chat, pode usar umas 10 ou 15 formas diferentes de rir; por outro lado, tem gente que usa a mesma risada durante a vida inteira. A única diferença em relação à vida é que na maioria das vezes, mesmo rindo, as pessoas estão bem sérias na frente do computador. Mas precisa rir nos dois lugares? Não é coisa de maluco, digamos assim, gargalhar sozinho no quarto? Houve um tempo em que meus pais chegaram a considerar que eu estava retardado da cabeça.

A risada mais comum, de fato, é o “hahaha”, assim mesmo, com três ou quatro sílabas, no máximo. Se passar disso já é uma gargalhada considerável. E tem o “haha”, com apenas duas sílabas, que também apresenta algumas diferenças de sentido: trata-se de uma risada mais casual, um pouco menos empolgada; digamos que é quando você ri só pra dizer que riu. Acontece geralmente quando o outro faz uma piada sem muita graça. Mas pior ainda é o “hehe”, usado em ocasiões em que a piada realmente não tem graça. No entanto, o “hehe” às vezes funciona também como um riso meio malandrinho. Você pode dizer qualquer ambiguidade a uma garota e logo em seguida soltar um “hehe”, como quem diz: preste bastante atenção no que eu acabei de te falar.

Há pessoas também que costumam escrever “risos” para rir. Ou então suas abreviaturas: “rsrsrs” ou apenas “rs”. Sempre tenho a impressão de que estas pessoas não estão rindo de verdade, mas apenas se representando como alguém que está rindo, o que é muito diferente. São aquelas pessoas que vendem caro uma risada, seguram o riso em algum lugar desconhecido; ou vai ver que não conhecem o verdadeiro prazer de uma grande gargalhada. Completamente diferentes são aquelas que riem com caixa alta: “HAHAHAHAHA”, essas, sim, pessoas exageradas e extravagantes, dá gosto de ver. Há casos em que depois de uma risada com caixa alta, a pessoa ainda comenta: “ai, morri...”. E tem também o riso histérico, provavelmente o mais deselegante, digno de quem bebe demais nas festas de formatura e depois enche o nosso saco na hora de voltar pra casa: o famoso “kkkkkkkkk”.

Mas nada disso, naturalmente, é muito certo. As formas de linguagem afinal são como o time do Avaí: sempre nos surpreendem. E novas formas de riso também estão sempre aparecendo, independente se a piada é boa ou não, mesmo que a vida não seja um stand up comedy permanente. Depois, cada pessoa acaba encontrando seu modo de rir ideal, ou seja, o modo de rir que lhe representa melhor, e que nunca é igual ao modo de rir do outro, mas mesmo assim todo mundo vai se entendendo e rindo como pode. Pelo menos é nisso que a gente acredita