10.5.16

Morte e vida de William Stoner (1891-1956)


No Posfácio de Stoner (Rádio Londres, 2015), livro do recentemente cultuado norte-americano John Williams (1922-1994), Peter Cameron é preciso ao afirmar que o material do livro não é muito promissor para um romance, já que o protagonista leva uma vida monótona e, no geral, desinteressante, sobretudo para ele próprio – e no entanto, mesmo assim, o escritor “transforma a existência de William Stoner em uma história apaixonante, profunda e pungente”, seguindo as palavras de Cameron, que se refere também a um “milagre literário”. Se há romances enfadonhos sobre pessoas (ou personagens) promissores, que possuem vidas repletas de dramas, reviravoltas e acontecimentos, Stoner é exatamente o contrário: um romance comovente, e bastante linear, sobre um personagem conformado, mas cativante a seu modo. 

Por que isso acontece? Cameron afirma, modestamente, que depois de ter lido o livro três vezes ainda não conseguiu entendê-lo “de verdade”, mas é possível especular sobre alguns motivos que fazem de Stoner um “milagre”. Em primeiro lugar, o personagem é uma combinação entre o “homem bom”, meio indiferente a tudo, mas também impotente e um pouco caipira, que suporta com dignidade a falta de graça que é a sua vida. Embora a bondade ou a virtude nem sempre sejam suficientes para boas histórias, a raridade do livro consiste na maneira como o personagem, por conta de um perfil particular, acaba passando incólume pela vida. Nesse sentido, podemos lembrar que a origem de William Stoner é agrária: se ele pôde estudar, seus pais são simplórios – e por isso cada vez mais distantes do protagonista. 

Seja como for, a biografia de Stoner não é exatamente a de um santo – ele trai a esposa com uma mulher mais nova, negligencia a própria filha, persegue um aluno que frequenta um de seus cursos, sendo bastante duro em suas avalições etc. E o personagem tampouco é completamente infeliz: volta e meia Stoner acaba encontrando sentido em algumas aulas satisfatórias, nos encontros com a amante e mesmo nos poucos amigos que faz na universidade, dois ou três. Nesse sentido, nem se pode dizer de uma existência trágica ou especialmente triste, mas apenas tediosa e monótona, acompanhada em detalhes – e com muita delicadeza – por uma narrativa também ela pouco acidentada, e até mesmo meio antiquada, que esmiúça a vida do personagem por todos os ângulos, mas sem tomar qualquer posição a seu respeito. Daí aliás esse título também tão seco e direto. 

Por um lado, Stoner é realmente uma espécie de biografia, já que se trata, a rigor, da “grafia de uma bio”, e Cameron mais uma vez parece acertar quando afirma que, de certa maneira, todo o sentido da vida de William Stoner está praticamente selado no primeiro parágrafo do livro: ali, o narrador nos diz que em 1918 Stoner passou a lecionar na Universidade do Missouri, onde permaneceu até a sua morte, em 1956, e que ele nunca subiu na carreira acima da posição de professor assistente, sendo que “poucos estudantes lembravam dele com alguma nitidez após terem cursado suas disciplinas”. Mais do que a falta de sucesso de Stoner, o narrador já nos informa também, embora de passagem, sobre a sua morte, como quem adianta que o sentido da vida deste personagem será fechado ao final do livro, afinal uma vida só se completa quando acaba. 

 Por outro lado, Stoner não pode ser uma biografia, e isso por dois motivos bem simples e até óbvios: como já foi mencionado, a vida deste personagem não possui qualquer relevância (nem na universidade onde trabalhou durante mais de quarenta anos e, aliás, nem mesmo para a sua própria mulher) e, além disso, a sua história não é contada de modo a engrandecer seus feitos, como nos gêneros laudatórios – em todo caso, nem para diminui-los. Esta acaba sendo uma das raridades do romance: trata-se de uma investigação minuciosa sobre a vida e o perfil de um sujeito anônimo, mediano. Por isso, na falta dos grandes feitos, o que sobra para contar é todo aquele resto que podemos chamar de vida. Talvez também seja por isso que temos a sensação, ao fechar o livro, de que realmente conhecemos Stoner. E isso, convenhamos, não é pouco.

1.7.14

Por que não googlas? (um poema de Angélica Freitas)


Creio que ainda não foi devidamente avaliada a relação entre a poesia de Angélica Freitas e o dadaísmo. Em um ensaio sobre a autora, escrito por ocasião do lançamento do seu primeiro livro na Alemanha, Ricardo Domeneck chega a associar os poemas de Rilk Shake (2007) com a poesia "lírico-satírica de dadaístas como Hans Arp e Kurt Schwitters", lembrando também que a poeta brasileira tornou-se "precursora no país da prática que chamamos de googlagem", mas tais relações são apenas mencionadas. Especialmente os "3 poemas com o auxílio do google", presentes em um útero é do tamanho de um punho (2013), por levarem à risca a receita do poema-manifesto de Tristan Tzara, sugerem consequências interessantes. Dividido em três partes, "a mulher vai", "a mulher pensa" e "a mulher quer", o poema de Angélica, de fato, é uma versão digital da "Receita para fazer um poema dadáísta", mas não apenas isso. De maneira irônica e um pouco avessa, o poema também funciona como uma espécie de manifesto feminista, na medida em que expõe, com certa crueldade, um imaginário mais ou menos consolidado em torno da mulher, através de uma verdadeira proliferação de clichês: "a mulher quer ser amada/ a mulher quer um cara rico/ a mulher quer conquistar um homem/ a mulher quer um homem (…)" etc.













Em uma conferência realizada já no ano de 1970, Raoul Hausmann dizia que o dadaísmo foi uma tentativa de "olhar a coisa nos olhos", ou seja, se posicionar frente à frente com a crueldade do tempo. Diferente do expressionismo, que seria, para os dadaístas, "o gesto dos seres cansados, que desejam sair de si para esquecer a época, a guerra e a miséria", os dadaístas escreviam poemas com "o revólver na mão". Nesse sentido, assim como no poema de Angélica Freitas, trata-se de uma literatura não apenas que expõe o absurdo de algo que está excessivamente perto, e não tão longe, como muitas vezes podemos esperar, e sim de uma literatura que também ela própria se expõe ao perigo. E o poema se expõe ao perigo justamente porque opera através do mimetismo, quer dizer, o poema não fala sobre a crueldade, mas revive a crueldade em cada verso. Em outras palavras, o nome do perigo é a falta de sentido. Daí, por exemplo, o tom afirmativo do poema, aliás repetidamente afirmativo, e seco, sem espaço para o meio tom e o diálogo, enfim, tom não exatamente debochado, mas autoritário. É como se os "3 poemas com o auxílio do google" fossem vários homens falando ao mesmo tempo, o que não deixa de ser também outra versão do simultaneísmo proposto por Hugo Ball no Cabaret Voltaire, e não uma conferência sobre os direitos femininos.

Por sua vez, o crítico espanhol Manuel Maldonado Alemán, nas primeiras linhas de um artigo sobre o dadaísmo, lembra que o movimento nasceu, em 1916, como "resposta a uma guerra". No caso, o crítico está se referindo, naturalmente, ao belicismo da primeira Guerra Mundial, mas sabemos que cada época cria as suas próprias guerras particulares. Em um esquema: a estratégia política dadá, que poderíamos chamar de propaganda política, consiste em expor a falta de sentido dos discursos do poder, supondo assim que o leitor tome posição no que diz respeito ao absurdo do mundo em que vive. Escreve Manuel Maldonado: "O dadaísmo supõe uma resposta de certo modo carnavalesca à loucura bélica que impera, e se comporta, dessa forma, como mais um sintoma da falta de sentido de toda uma época e da crise da consciência". Eis uma chave para entender o poema de Angélica Freitas: como apreensão do próprio sintoma do machismo, sua maneira de pensar. Se "a mulher pensa", como indica o título da segunda parte, os primeiros versos estão ali para desmentir: "a mulher pensa com o coração/ a mulher pensa de outra maneira/ a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante" etc.  Creio portanto que o principal mérito dos "3 poemas com o auxílio do google" tenha sido não exatamente uma denúncia, como está claro, e sim a apreensão "neutra", ou seja, com o "auxílio" do google, e daí incômoda, dos clichês em torno da mulher, o que não deixa de ser também uma forma de "resposta a uma guerra".

a mulher quer

a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente
a mulher quer ser possuída
a mulher quer um macho que a lidere
a mulher quer casar
a mulher quer que o marido seja seu companheiro
a mulher quer um cavalheiro que cuide dela
a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar
a mulher quer conversar pra discutir a relação
a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo
a mulher quer apenas que você escute
a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho
a mulher quer segurança
a mulher quer mexer no seu e-mail
a mulher quer estabilidade
a mulher quer nextel
a mulher quer ter um cartão de crédito
a mulher quer tudo
a mulher quer ser valorizada e respeitada
a mulher quer se separar
a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais
a mulher quer se suicidar

7.6.14

Lance de dardos (um poema de Ana Martins Marques)


O crítico Murilo Marcondes de Moura já havia notado, na orelha de A vida submarina (2009), que a poesia de Ana Martins Marques sintetiza uma "equação rara", ou seja, "a elaboração dos poemas é concomitante à reflexão sobre o vivido, e nesse estreitamento entre linguagem e experiência talvez resida a [sua] maior força". O comentário é preciso, além do mais, porque afasta a hipótese de que a poesia, e neste caso especialmente a poesia de Ana, deva se comportar como um corpo autônomo, digamos que limpo, sem interferência exterior, embora à primeira vista, talvez pelo extremo zelo de sua escrita, possa passar semelhante impressão. A falsa impressão, no entanto, também parece estar prevista, conforme é possível concluir do aviso estampado no título de seu segundo livro, Da arte das armadilhas (2011). Ou seja, Ana Martins sabe que fazer poemas, além de ser uma armadilha para a própria poeta, é outra também para o leitor. A primeira parte de A vida submarina dá demonstrações variadas disso, que poderiam ser resumidas pela ideia de que quase sempre estamos lendo um poema que não existe, desaparece, falha, se consome ou poderia ter sido feito, mas não foi: "É por isso/ meu amor/ que eu dedico a você/ este poema/ em branco".

Seja como for, um poema como "Dardo", apontado por Murilo Marcondes como chave do primeiro livro da autora, cria um vínculo entre corpo, mundo e poema. Esta interação, no entanto, na poesia de Ana Martins, não é fácil e nem óbvia, mas secreta, submarina, como as armadilhas ou o próprio mar. Aliás, "Dardo" poderia ser tomado assim como uma espécie de programa de sua poesia: "Existe o poema/ um dardo atirado a coisas mínimas/ à noite, às cicatrizes (…)". Trocando em miúdos, a leitura do tema amoroso, por exemplo, não pode ser desligada das ruminações da poeta em torno de seu ofício, coisa que, por sua vez, é também uma forma de se perguntar sobre o mundo, o estado das coisas, a passagem do tempo e a relação com o outro, projeto que Murilo Marcondes chama de "existencial". Assim, um pouco diferente talvez da fórmula inicial do crítico, linguagem e experiência são na verdade uma coisa só. Quer dizer, além de ser um "lugar para pensar", o poema é o próprio pensamento, assim como a invenção (mínima, como se fosse feita por um dardo) de um lugar pra viver.




Dardo

Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mãos pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.

29.5.14

O romance dos imprevistos

Em Memorial de Aires, talvez como em nenhum outro romance de Machado de Assis, aparece de modo determinante a noção de imprevisto, que é central para entender uma série de relações entre a literatura moderna (depois de Balzac, digamos) e a cidade. Sobre Balzac, o crítico Franco Moretti diz justamente que sua grande invenção consiste em "mostrar que a vida de um rapaz podia ser excitante sem que ela tivesse de naufragar numa ilha deserta, assinar um pacto com o demônio nem criar bonecos homicidas de tamanho real". Isso porque, com as novas formas de relações sociais advindas sobretudo de um regimento capitalista ainda incipiente, a própria vida cotidiana transforma-se em uma verdadeira aventura, bastando acumular algumas notas promissórias ou então se apaixonar por uma atriz leviana, por exemplo. Segundo as palavras de Vautrin, personagem das Ilusões Perdidas, é assim que gira a roda na Paris do século XIX: "ontem à noite no baile da duquesa, hoje de manhã no escritório do agiota".



















A noção de imprevisto, neste romance de Machado, parece se construir de maneira consciente, conforme é possível interpretar do último diálogo entre Aires e Tristão, quando este diz: "Que quer, conselheiro? A vida é assim cheia de liames e imprevistos…". A frase de Tristão possui certo caráter conclusivo e definitivo, como se fosse uma obviedade, mas sabemos também que a vida, até pouco tempo atrás, não era tão cheia de imprevistos assim. No livro, seja como for, as expectativas de felicidade do casal Aguiar são remodeladas a cada página do diário de Aires, através de diversos fatores externos e muitas vezes casuais, que giram em torno principalmente do amor e da política. Para quem não lembra, o casal, que é frustrado porque não teve filhos, possui dois "filhos emprestados", Tristão e Fidélia, e faz de tudo para que ambos permaneçam a seu lado, mas o resultado não depende apenas do desejo, e sim de uma equação cujo resultado final depende muito mais do acaso. No fim, o destino acaba levando ambos para Portugal.

Formalmente, o livro também lida com o imprevisto. A própria linguagem do diário, à sua maneira contingencial e provisória, bem diferente do tom memorialista de Dom Casmurro, parece feita para captar as inúmeras reviravoltas do enredo, mas não apenas isso. Há um trecho especialmente que, em miniatura, e com certo senso de humor, associa a forma do diário aos efeitos da surpresa. No fragmento referente ao dia 30 de setembro, Aires termina reclamando de dores e anotando o seguinte: "Durmo bem às noites, mas não me faz bem andar, dói-me. Amanhã, se não acordar pior, saio." No dia seguinte, no entanto, o autor escreve apenas isso: "Estou melhor, mas choveu e não saí". Enfim, poderíamos talvez pensar que se em Memórias Póstumas de Brás Cubas o personagem é volúvel, conforme a interpretação clássica de Roberto Schwarcz, em Memorial de Aires a volubilidade se apresenta tanto no nível da trama quanto na própria forma de escrita. O romance, no caso, fica sendo as próprias reviravoltas que dá.

28.5.14

Machado de Assis surpreende em novo romance

No começo do ano, o escritor Ricardo Lísias, que edita um ótimo fanzine, o Silva, convidou-me para escrever uma resenha de algum livro clássico como se o livro tivesse acabado de ser lançado. Creio que nos próximos números do Silva outros escritores levarão a ideia adiante, com novas resenhas. Eis abaixo minha colaboração. 


Após a publicação de quatro romances bastante lembrados e saudados nas melhores gazetas fluminenses, Machado de Assis surpreende até mesmo seus leitores mais frequentes, ou principalmente eles, com estas Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro que ainda dará muito o que falar. Verdade que os leitores mais atentos de Machado já tinham alguma notícia do livro através da Revista Brasileira, onde os capítulos foram sendo publicados pouco a pouco durante o ano de 1880, mas agora a edição ganhou um ponto final, ficou acabada e é assim que poderá ser melhor compreendida. 

Convenhamos que existe um abismo que separa o “langoroso idílio” e o “estilo ameno” de Iaiá Garcia, publicado apenas três anos antes, e esta nova obra escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, como bem define o autor – no caso, o próprio Brás Cubas, que assina o prefácio e reivindica a obra como sua. Além do uso de recursos formais até então inexplorados, como é o caso da narrativa em primeira pessoa, Machado de Assis imprime ao livro um ritmo mais febril e o estilo desabusado. No geral, o que antes fazia parte dos bastidores, agora veio à ribalta. Enfim, o que terá acontecido com o escritor durante estes últimos anos? A que conclusões a respeito da vida teria ele chegado? Provavelmente estas perguntas não terão respostas. 

Na mais rigorosa análise do romance, escrita por Capistrano de Abreu e publicada na Gazeta de Notícias, o nosso historiador se pergunta justamente se as Memórias Póstumas de Brás Cubas serão um romance, coisa que o próprio Capistrano responde: “Em todo o caso são mais alguma coisa. O romance aqui é simples acidente. O que é fundamental e orgânico é a descrição dos costumes, a filosofia social que está implícita”. Nisso estamos de acordo, mas o que vem a ser o acidente, no caso? Seria a radical fragmentação e diluição do enredo? E qual filosofia social estaria implícita? De início, o novo romance de Machado de Assis nos leva mais ao exercício da dúvida do que propriamente da conclusão. 

O fio condutor do livro consiste na vida de Brás Cubas, personagem repleto de falhas morais; é egoísta, mesquinho, falso, imprudente e preguiçoso, isso pra dizer o mínimo. Verdade que Brás é também um pouco engraçado, mas seu humor será capaz de lhe pagar todas as dívidas? O que mais surpreende, no entanto, é que nosso personagem em nenhum momento parece interessado em esconder os próprios defeitos, aliás muito pelo contrário, pois eles estão todos expostos na superfície de suas memórias. E isso por um motivo que o leitor, se não é por demais distraído, já deve ter pescado: Brás Cubas tem a franqueza não digo dos velhos, mas dos defuntos, que parece ser ainda mais genuína e eficaz. A rigor, nada mais deve aos vivos. 

Desconfio, no entanto, que a vida de nosso personagem não teria lá muito interesse se fosse contada por terceiros. Em comentário publicado no jornal A Estação, por exemplo, assim aparece resumida a sua história: “Um sujeito nulo que escreve para os jornais, escapa de casar, e morre”. De fato, Brás Cubas não tornou-se deputado, não obteve sucesso com suas invenções, tampouco com seus escritos, não teve filhos e escapou mesmo de pelo menos uns quatro casamentos, por motivos dos mais variados, inclusive porque uma das pretendentes era manca, mas nem por isso abriu mão de redigir suas memórias, talvez a tentativa derradeira de imprimir seu nome na história, como em um epitáfio. 

Não revelaremos todos os detalhes destas Memórias para não antecipar certas surpresas ao leitor, embora a principal delas esteja dita no começo: Brás Cubas morre no final. De qualquer modo, não podemos deixar de dizer que muitos outros personagens também vêm a óbito, pois é a morte, ao lado do dinheiro, o grande tema deste romance. A primeira a morrer é a mãe de Brás, que ficou só em ossos, pois os ossos “não emagrecem nunca”, e esta parece se tratar da única morte verdadeiramente sentida pelo nosso personagem. Logo depois é a vez do pai, mas este se foi “sem a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu”, resume. Quando morrem dois primos e o tio cônego, Brás sequer dedica a eles um capítulo inteiro de suas memórias, se limitando a dizer as seguintes palavras: “levei-os ao cemitério, como quem leva dinheiro a um banco”. 

Se os parentes mortos ocupam um parágrafo inteiro, as mulheres ocupam outro. Uma de suas pretendentes, Eulália morre aos 19 anos por ocasião da primeira entrada da febre amarela, merecendo um simpático epitáfio no Capítulo CXXV e também alguma tristeza de Brás, mas “sem lágrimas”, pois a tristeza vem acompanhada da conclusão de que “talvez não a amasse deveras”. Marcela, a espanhola que lhe partiu o coração nas primeiras páginas, morre nas últimas, “feia, magra, decrépita”. A manca Eugênia, por sua vez, não chega a morrer, mas é como se morresse, conforme irá notar o leitor, afinal há certas situações na vida que são ainda piores do que a morte. 

De resto, além ainda da morte de d. Plácida, do milionário Viegas, do rival Lobo Neves e do improvável amigo Quincas Borba, que além de morrer fica também demente, encontrará o leitor nestas Memórias Póstumas algumas “saudades, ambições, um pouco de tédio e muito devaneio solto”, de acordo com a reflexão que faz o próprio Brás Cubas enquanto “fisga moscas com os olhos”, logo após ser abandonado por Virgília, que não morre. E se o leitor encontrou motivos suficientes nesta breve notícia para adquirir e apreciar o novo romance de Machado de Assis, penso que tem toda razão, mas fica também o aviso de que, além dos personagens, nem mesmo os leitores são tratados no livro muito bem.