5.10.16

Havana para um infante defunto, de Guilhermo Cabrera Infantex

1. Guilhermo Cabrera Infante, da mesma forma que Manuel Puig, é um apaixonado - sem qualquer pista de ironia - pelo cinema hollywoodiano. O livro é repleto de alusões e declarações de amor a filmes, atores e, principalmente, atrizes norte-americanas. Interrogar qual é a influência da narrativa hollywoodiana no romance latino-americano pós-1970. Outros narradores sofreram a mesma influência?

2. Entre tantos trocadilhos, a maioria com conotações sexuais (corista sem decoro, pornográvido, fada das fodas, perita em pirulito, creme e castigo, coito circuito...), o meu preferido é um mais pudico: "Havana, la vana".

3. Por vezes, os relatos de amor (em grande parte frustrados) se parecem com um bolero. Em que medida a masculinidade - e a concepção de amor - do personagem do livro é forjada pelas canções dos tantos compositores populares de Cuba citados no livro, como Ernesto Lecuona, Bola de Nieve e Meme Solís?

4. Durante o livro, a posição de macho é constantemente afirmada (a ideia fixa nos corpos femininos etc.) e também relativizada - seja pelas respostas enviesadas que o narrador recebe das mulheres, fruto muitas vezes de sua falta de tato; seja pela exposição quase franca de sua insegurança sexual, geradora de uma série de fracassos; assim também como pela noção bastante romântica de amor que domina seu imaginário na passagem à vida adulta. As letras de bolero às vezes ilustram os relatos: "Tu serás meu último fracasso".

5. Naturalmente, existe uma série de confrontos, diferenças e ironias entre o autor que narra e o personagem narrado, que naturalmente são a mesma pessoa - entra aí também o deslocamento geográfico: as situações se passam em Cuba, mas o narrador, ao redigir, já vive exilado em Londres. A rigor, é esta distância que aquece a própria narrativa memorialística. "Será que vocês me perdoarão a hipérbole? Têm que perdoar, pois então eu era jovem  e os jovens são sempre excessivos".

6. A certa altura, o autor sugere uma tradição vulgar da literatura, ou da literatura vulgar, ou da vulgaridade na literatura - no qual, em todo caso, o próprio livro se insere -, que seria de sua predileção. No teatro, prefere "a menor das comédias menores de Shakespeare" à mais nobre tragédia grega. Quanto à imortalidade de Dom Quixote, ela se deve - além da inteligência do autor e da criação de dois arquétipos - à sua vulgaridade. Na literatura inglesa do século XVIII, o escritor por excelência é Sterne, e não o "moralizante" Swift ou a "certinha" Jane Austen. "Adoro as vulgaridades de Dickens e não suporto as pretensões de George Eliot", diz ainda. Quanto a James Joyce, "é tão inovador quanto vulgar".

7. As memórias do autor giram em torno de sua formação sexual, e não intelectual, tampouco familiar. No momento em que tem a sua primeira filha, que vira apenas um pano de fundo das memórias, a narrativa se volta inteiramente para uma das suas amantes, a atriz que possui vários nomes - Violeta del Valle, Margarita etc. Em vez de descrever os círculos intelectuais de Havana, nos quais já estava plenamente inserido, o autor prefere falar das aventuras sexuais, seja com casos, namoradas ou amantes. Sua esposa, na época, mãe de seu filho, ganha poucas linhas no livro. De certo modo, além de ser tratado como um "romance de formação", trata-se de um livro que se insere na tradição da literatura erótica.


10.5.16

Morte e vida de William Stoner (1891-1956)


No Posfácio de Stoner (Rádio Londres, 2015), livro do recentemente cultuado norte-americano John Williams (1922-1994), Peter Cameron é preciso ao afirmar que o material do livro não é muito promissor para um romance, já que o protagonista leva uma vida monótona e, no geral, desinteressante, sobretudo para ele próprio – e no entanto, mesmo assim, o escritor “transforma a existência de William Stoner em uma história apaixonante, profunda e pungente”, seguindo as palavras de Cameron, que se refere também a um “milagre literário”. Se há romances enfadonhos sobre pessoas (ou personagens) promissores, que possuem vidas repletas de dramas, reviravoltas e acontecimentos, Stoner é exatamente o contrário: um romance comovente, e bastante linear, sobre um personagem conformado, mas cativante a seu modo. 

Por que isso acontece? Cameron afirma, modestamente, que depois de ter lido o livro três vezes ainda não conseguiu entendê-lo “de verdade”, mas é possível especular sobre alguns motivos que fazem de Stoner um “milagre”. Em primeiro lugar, o personagem é uma combinação entre o “homem bom”, meio indiferente a tudo, mas também impotente e um pouco caipira, que suporta com dignidade a falta de graça que é a sua vida. Embora a bondade ou a virtude nem sempre sejam suficientes para boas histórias, a raridade do livro consiste na maneira como o personagem, por conta de um perfil particular, acaba passando incólume pela vida. Nesse sentido, podemos lembrar que a origem de William Stoner é agrária: se ele pôde estudar, seus pais são simplórios – e por isso cada vez mais distantes do protagonista. 

Seja como for, a biografia de Stoner não é exatamente a de um santo – ele trai a esposa com uma mulher mais nova, negligencia a própria filha, persegue um aluno que frequenta um de seus cursos, sendo bastante duro em suas avalições etc. E o personagem tampouco é completamente infeliz: volta e meia Stoner acaba encontrando sentido em algumas aulas satisfatórias, nos encontros com a amante e mesmo nos poucos amigos que faz na universidade, dois ou três. Nesse sentido, nem se pode dizer de uma existência trágica ou especialmente triste, mas apenas tediosa e monótona, acompanhada em detalhes – e com muita delicadeza – por uma narrativa também ela pouco acidentada, e até mesmo meio antiquada, que esmiúça a vida do personagem por todos os ângulos, mas sem tomar qualquer posição a seu respeito. Daí aliás esse título também tão seco e direto. 

Por um lado, Stoner é realmente uma espécie de biografia, já que se trata, a rigor, da “grafia de uma bio”, e Cameron mais uma vez parece acertar quando afirma que, de certa maneira, todo o sentido da vida de William Stoner está praticamente selado no primeiro parágrafo do livro: ali, o narrador nos diz que em 1918 Stoner passou a lecionar na Universidade do Missouri, onde permaneceu até a sua morte, em 1956, e que ele nunca subiu na carreira acima da posição de professor assistente, sendo que “poucos estudantes lembravam dele com alguma nitidez após terem cursado suas disciplinas”. Mais do que a falta de sucesso de Stoner, o narrador já nos informa também, embora de passagem, sobre a sua morte, como quem adianta que o sentido da vida deste personagem será fechado ao final do livro, afinal uma vida só se completa quando acaba. 

 Por outro lado, Stoner não pode ser uma biografia, e isso por dois motivos bem simples e até óbvios: como já foi mencionado, a vida deste personagem não possui qualquer relevância (nem na universidade onde trabalhou durante mais de quarenta anos e, aliás, nem mesmo para a sua própria mulher) e, além disso, a sua história não é contada de modo a engrandecer seus feitos, como nos gêneros laudatórios – em todo caso, nem para diminui-los. Esta acaba sendo uma das raridades do romance: trata-se de uma investigação minuciosa sobre a vida e o perfil de um sujeito anônimo, mediano. Por isso, na falta dos grandes feitos, o que sobra para contar é todo aquele resto que podemos chamar de vida. Talvez também seja por isso que temos a sensação, ao fechar o livro, de que realmente conhecemos Stoner. E isso, convenhamos, não é pouco.

1.7.14

Por que não googlas? (um poema de Angélica Freitas)


Creio que ainda não foi devidamente avaliada a relação entre a poesia de Angélica Freitas e o dadaísmo. Em um ensaio sobre a autora, escrito por ocasião do lançamento do seu primeiro livro na Alemanha, Ricardo Domeneck chega a associar os poemas de Rilk Shake (2007) com a poesia "lírico-satírica de dadaístas como Hans Arp e Kurt Schwitters", lembrando também que a poeta brasileira tornou-se "precursora no país da prática que chamamos de googlagem", mas tais relações são apenas mencionadas. Especialmente os "3 poemas com o auxílio do google", presentes em um útero é do tamanho de um punho (2013), por levarem à risca a receita do poema-manifesto de Tristan Tzara, sugerem consequências interessantes. Dividido em três partes, "a mulher vai", "a mulher pensa" e "a mulher quer", o poema de Angélica, de fato, é uma versão digital da "Receita para fazer um poema dadáísta", mas não apenas isso. De maneira irônica e um pouco avessa, o poema também funciona como uma espécie de manifesto feminista, na medida em que expõe, com certa crueldade, um imaginário mais ou menos consolidado em torno da mulher, através de uma verdadeira proliferação de clichês: "a mulher quer ser amada/ a mulher quer um cara rico/ a mulher quer conquistar um homem/ a mulher quer um homem (…)" etc.













Em uma conferência realizada já no ano de 1970, Raoul Hausmann dizia que o dadaísmo foi uma tentativa de "olhar a coisa nos olhos", ou seja, se posicionar frente à frente com a crueldade do tempo. Diferente do expressionismo, que seria, para os dadaístas, "o gesto dos seres cansados, que desejam sair de si para esquecer a época, a guerra e a miséria", os dadaístas escreviam poemas com "o revólver na mão". Nesse sentido, assim como no poema de Angélica Freitas, trata-se de uma literatura não apenas que expõe o absurdo de algo que está excessivamente perto, e não tão longe, como muitas vezes podemos esperar, e sim de uma literatura que também ela própria se expõe ao perigo. E o poema se expõe ao perigo justamente porque opera através do mimetismo, quer dizer, o poema não fala sobre a crueldade, mas revive a crueldade em cada verso. Em outras palavras, o nome do perigo é a falta de sentido. Daí, por exemplo, o tom afirmativo do poema, aliás repetidamente afirmativo, e seco, sem espaço para o meio tom e o diálogo, enfim, tom não exatamente debochado, mas autoritário. É como se os "3 poemas com o auxílio do google" fossem vários homens falando ao mesmo tempo, o que não deixa de ser também outra versão do simultaneísmo proposto por Hugo Ball no Cabaret Voltaire, e não uma conferência sobre os direitos femininos.

Por sua vez, o crítico espanhol Manuel Maldonado Alemán, nas primeiras linhas de um artigo sobre o dadaísmo, lembra que o movimento nasceu, em 1916, como "resposta a uma guerra". No caso, o crítico está se referindo, naturalmente, ao belicismo da primeira Guerra Mundial, mas sabemos que cada época cria as suas próprias guerras particulares. Em um esquema: a estratégia política dadá, que poderíamos chamar de propaganda política, consiste em expor a falta de sentido dos discursos do poder, supondo assim que o leitor tome posição no que diz respeito ao absurdo do mundo em que vive. Escreve Manuel Maldonado: "O dadaísmo supõe uma resposta de certo modo carnavalesca à loucura bélica que impera, e se comporta, dessa forma, como mais um sintoma da falta de sentido de toda uma época e da crise da consciência". Eis uma chave para entender o poema de Angélica Freitas: como apreensão do próprio sintoma do machismo, sua maneira de pensar. Se "a mulher pensa", como indica o título da segunda parte, os primeiros versos estão ali para desmentir: "a mulher pensa com o coração/ a mulher pensa de outra maneira/ a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante" etc.  Creio portanto que o principal mérito dos "3 poemas com o auxílio do google" tenha sido não exatamente uma denúncia, como está claro, e sim a apreensão "neutra", ou seja, com o "auxílio" do google, e daí incômoda, dos clichês em torno da mulher, o que não deixa de ser também uma forma de "resposta a uma guerra".

a mulher quer

a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente
a mulher quer ser possuída
a mulher quer um macho que a lidere
a mulher quer casar
a mulher quer que o marido seja seu companheiro
a mulher quer um cavalheiro que cuide dela
a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar
a mulher quer conversar pra discutir a relação
a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo
a mulher quer apenas que você escute
a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho
a mulher quer segurança
a mulher quer mexer no seu e-mail
a mulher quer estabilidade
a mulher quer nextel
a mulher quer ter um cartão de crédito
a mulher quer tudo
a mulher quer ser valorizada e respeitada
a mulher quer se separar
a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais
a mulher quer se suicidar

7.6.14

Lance de dardos (um poema de Ana Martins Marques)


O crítico Murilo Marcondes de Moura já havia notado, na orelha de A vida submarina (2009), que a poesia de Ana Martins Marques sintetiza uma "equação rara", ou seja, "a elaboração dos poemas é concomitante à reflexão sobre o vivido, e nesse estreitamento entre linguagem e experiência talvez resida a [sua] maior força". O comentário é preciso, além do mais, porque afasta a hipótese de que a poesia, e neste caso especialmente a poesia de Ana, deva se comportar como um corpo autônomo, digamos que limpo, sem interferência exterior, embora à primeira vista, talvez pelo extremo zelo de sua escrita, possa passar semelhante impressão. A falsa impressão, no entanto, também parece estar prevista, conforme é possível concluir do aviso estampado no título de seu segundo livro, Da arte das armadilhas (2011). Ou seja, Ana Martins sabe que fazer poemas, além de ser uma armadilha para a própria poeta, é outra também para o leitor. A primeira parte de A vida submarina dá demonstrações variadas disso, que poderiam ser resumidas pela ideia de que quase sempre estamos lendo um poema que não existe, desaparece, falha, se consome ou poderia ter sido feito, mas não foi: "É por isso/ meu amor/ que eu dedico a você/ este poema/ em branco".

Seja como for, um poema como "Dardo", apontado por Murilo Marcondes como chave do primeiro livro da autora, cria um vínculo entre corpo, mundo e poema. Esta interação, no entanto, na poesia de Ana Martins, não é fácil e nem óbvia, mas secreta, submarina, como as armadilhas ou o próprio mar. Aliás, "Dardo" poderia ser tomado assim como uma espécie de programa de sua poesia: "Existe o poema/ um dardo atirado a coisas mínimas/ à noite, às cicatrizes (…)". Trocando em miúdos, a leitura do tema amoroso, por exemplo, não pode ser desligada das ruminações da poeta em torno de seu ofício, coisa que, por sua vez, é também uma forma de se perguntar sobre o mundo, o estado das coisas, a passagem do tempo e a relação com o outro, projeto que Murilo Marcondes chama de "existencial". Assim, um pouco diferente talvez da fórmula inicial do crítico, linguagem e experiência são na verdade uma coisa só. Quer dizer, além de ser um "lugar para pensar", o poema é o próprio pensamento, assim como a invenção (mínima, como se fosse feita por um dardo) de um lugar pra viver.




Dardo

Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mãos pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.

29.5.14

O romance dos imprevistos

Em Memorial de Aires, talvez como em nenhum outro romance de Machado de Assis, aparece de modo determinante a noção de imprevisto, que é central para entender uma série de relações entre a literatura moderna (depois de Balzac, digamos) e a cidade. Sobre Balzac, o crítico Franco Moretti diz justamente que sua grande invenção consiste em "mostrar que a vida de um rapaz podia ser excitante sem que ela tivesse de naufragar numa ilha deserta, assinar um pacto com o demônio nem criar bonecos homicidas de tamanho real". Isso porque, com as novas formas de relações sociais advindas sobretudo de um regimento capitalista ainda incipiente, a própria vida cotidiana transforma-se em uma verdadeira aventura, bastando acumular algumas notas promissórias ou então se apaixonar por uma atriz leviana, por exemplo. Segundo as palavras de Vautrin, personagem das Ilusões Perdidas, é assim que gira a roda na Paris do século XIX: "ontem à noite no baile da duquesa, hoje de manhã no escritório do agiota".



















A noção de imprevisto, neste romance de Machado, parece se construir de maneira consciente, conforme é possível interpretar do último diálogo entre Aires e Tristão, quando este diz: "Que quer, conselheiro? A vida é assim cheia de liames e imprevistos…". A frase de Tristão possui certo caráter conclusivo e definitivo, como se fosse uma obviedade, mas sabemos também que a vida, até pouco tempo atrás, não era tão cheia de imprevistos assim. No livro, seja como for, as expectativas de felicidade do casal Aguiar são remodeladas a cada página do diário de Aires, através de diversos fatores externos e muitas vezes casuais, que giram em torno principalmente do amor e da política. Para quem não lembra, o casal, que é frustrado porque não teve filhos, possui dois "filhos emprestados", Tristão e Fidélia, e faz de tudo para que ambos permaneçam a seu lado, mas o resultado não depende apenas do desejo, e sim de uma equação cujo resultado final depende muito mais do acaso. No fim, o destino acaba levando ambos para Portugal.

Formalmente, o livro também lida com o imprevisto. A própria linguagem do diário, à sua maneira contingencial e provisória, bem diferente do tom memorialista de Dom Casmurro, parece feita para captar as inúmeras reviravoltas do enredo, mas não apenas isso. Há um trecho especialmente que, em miniatura, e com certo senso de humor, associa a forma do diário aos efeitos da surpresa. No fragmento referente ao dia 30 de setembro, Aires termina reclamando de dores e anotando o seguinte: "Durmo bem às noites, mas não me faz bem andar, dói-me. Amanhã, se não acordar pior, saio." No dia seguinte, no entanto, o autor escreve apenas isso: "Estou melhor, mas choveu e não saí". Enfim, poderíamos talvez pensar que se em Memórias Póstumas de Brás Cubas o personagem é volúvel, conforme a interpretação clássica de Roberto Schwarcz, em Memorial de Aires a volubilidade se apresenta tanto no nível da trama quanto na própria forma de escrita. O romance, no caso, fica sendo as próprias reviravoltas que dá.